# Quem foram Tackla e Assis? Os artistas da Serra que um vereador quer censurar

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- Published: 2025-09-01T17:24:25-03:00
- Author: Yuri Scardini

Antônio Tackla e Walter de Assis: dois nomes que jamais deveriam ser esquecidos 
na cultura da Serra, e muito menos ter suas obras — que valorizam a história de 
formação do município — censuradas.

Este texto busca recuperar a memória desses dois artistas serranos em um momento
delicado, no qual o vereador Antônio Aprigio, conhecido como CEA, solicitou à Câmara
da Serra a retirada de suas obras dos murais da Casa de Leis. O pedido não apenas
foi protocolado burocraticamente, mas também verbalizado na tribuna durante a sessão
da última quarta-feira (27).

É evidente que cada um tem sua individualidade humana, mas há um abismo entre reconhecer
diferenças pessoais e pedir a censura de obras de arte que retratam o que significa
ser serrano. Trata-se, sim, de censura artística contra a história de luta de tantas
pessoas, especialmente na resistência à escravidão — tema retratado de forma brilhante
por Assis e Tackla.

Mas este [texto](https://www.instagram.com/jornaltemponovo/) não é sobre o vereador,
que não merece mais do que o repúdio. Ele é, acima de tudo, uma homenagem a esses
dois serranos talentosos, artísticos e batalhadores pela cultura de uma das cidades
mais antigas do Brasil, que ainda sofre com a carência de memória e identidade.

## **Walter de Assis**

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Walter de Assis, considerado por muitos o maior artista da Serra. Crédito: Arquivo
TN/Edson Reis.

Nascido em 18 de novembro de 1931, na localidade de Putiri, entre Serra-Sede e Nova
Almeida, Walter Francisco de Assis era descendente de escravizados. Sua avó foi 
escravizada na região do Queimado, onde morreu, e ajudou a construir a Igreja de
São José do Queimado, que hoje funciona como um museu a céu aberto.

Segundo informou ao Tempo Novo em 1986, foi ela quem lhe contou histórias e retratou
em palavras parte do que ele viria a pintar. Além disso, Assis era espírita e dizia
que suas telas eram resultado de meditação e de contato com o mundo espiritual, 
o que o ajudava a retratar aquela época com sensibilidade artística.

Autodidata, Assis produziu mais de 300 telas, sendo o artista plástico da Serra 
com o maior acervo já registrado. “A gente nasce com o dom, depois aperfeiçoa. Eu
amo a Serra e gosto de retratar sua história”, afirmou em entrevista ao Jornal Tempo
Novo, em 2007.

Dois anos antes de sua morte, em 2015, Assis explicou ao Tempo Novo o motivo de 
pintar apenas pessoas negras em suas obras: “Uma vez um amigo me perguntou por que
eu só pintava quadros com pessoas negras. É a sensibilidade da raça. Sou muito ligado
aos escravos, eu gosto da história e queria dar voz a quem pouco apareceu nela. 
O que não pode é uma cidade que teve tanto escravo não preservar a memória deles.”

Sua pintura figurativa era feita à mão livre, sempre voltada ao resgate histórico:“
Gosto de retratar a época colonial. Pinto o folclore, a vida e o cotidiano dos serranos,
as cenas rurais, os agricultores, o Queimado. Gosto da história, gosto do resgate”,
disse em outra entrevista, em 1998.

As obras de Walter de Assis estão espalhadas por todo o Brasil e chegaram a ser 
expostas no Senado e na Câmara Federal, em Brasília. O tema que mais retratou foi
a Insurreição do Queimado, considerado um dos episódios mais emblemáticos da memória
de resistência à escravidão no Brasil. Além disso, suas telas em óleo sobre tela
incluem representações da Igreja e Residência de Reis Magos, em Nova Almeida, da
Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Serra-Sede, do movimento cultural do congo,
do tradicional Navio Palermo e da imagem de São Benedito.

Ao longo da vida, Assis foi também um militante ativo pela valorização da cultura
serrana. Promoveu cursos de desenho e pintura para a comunidade, apoiou a organização
de bandas de congo e lutou pela preservação do Queimado. Em vida, ele fez mais de
100 exposições de arte e por muitos anos ajudou a organizar os tradicionais festejos
da Serra. Em 2006, a escola de samba Rosas de Ouro levou para a avenida o enredo“
Sou Afro-Serrano – Sou Cultura – Sou Raiz”. Entre os carros alegóricos, estava o“
Obras de Assis”, que homenageou o legado do artista plástico serrano.

Na virada da década de 1970 para 1980, Assis fundou o Jornal da Serra, publicação
que circulou por cerca de dois anos e pode ser considerada precursora do Tempo Novo.
Foi ainda um dos fundadores da Academia de Letras e Artes da Serra (Aleas).

Walter de Assis faleceu em 2017, no Hospital da Associação dos Funcionários Públicos
do Espírito Santo, em decorrência de complicações respiratórias após um quadro de
pneumonia.

É dele duas das três obras que o vereador CEA pretende censurar na Câmara da Serra.
Ambas fazem parte do acervo da Casa de Leis por meio de doação do próprio artista
e retratam a vivência e o trabalho de pessoas escravizadas na antiga vila da Serra-
Sede, em meio aos festejos tradicionais.

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Tela de Assis/2003.

## **Antônio Tackla**

![](https://www.portaltemponovo.com.br/wp-content/uploads/2025/09/svhqln-800.jpg)

Tackla: participante ativo da vida sociocultural e filantrópica do município.

Artista plástico da Serra, o advogado Antônio César Campos Tackla foi um dos membros
fundadores da Academia de Letras e Artes da Serra (Aleas), do Conselho de Segurança
e do Conselho de Cultura. Também presidiu o Lions Club da Serra e foi participante
ativo da vida sociocultural e filantrópica do município.

Além de advogado, Tackla era escritor e poeta, autor do livro de poesias “Folhas
Soltas”, que reúne 26 poemas sobre amor, sexualidade e reflexões do cotidiano humano.
Colaborador do Tempo Novo, assinou durante anos uma coluna com comentários sobre
advocacia e cultura. Tackla foi considerado mais versátil que Walter de Assis no
campo artístico, explorando diferentes linguagens. Entre suas exposições, destacam-
se:

As obras em guache “Cartazes”; As pinturas em nanquim “Ars Gralia Artis” e “Feira
de Arte” (esta última em têmpera), todas de 1978; A exposição de 1983, com fotografias
intituladas “Calidoscópio”, além de pinturas, esculturas, desenhos e fotos reunidas
sob o nome “Quinquilharias”; A participação na mostra coletiva “Cochichart”. Ele
organizou e participou de mais de uma centena de exposições artísticas.

Tackla também esteve presente no esporte local, sendo um dos organizadores do Campeonato
de Futebol Amador da Serra, onde atuou como presidente da junta técnica de arbitragem.

Como artista plástico, seus quadros representavam diferentes cenas, muitas delas
ligadas à memória da escravidão na Serra, tema marcante em sua trajetória por fazer
parte de suas raízes familiares — já que ele era natural da Serra-Sede, local onde
a utilização de mão de obra escravizada foi mais intensa no município. Tackla fundou
ainda a já extinta Associação dos Artistas Plásticos da Serra.

Ele também utilizou sua atuação como advogado em benefício da cultura serrana. Foi
responsável, por exemplo, por reverter parte dos direitos autorais da música “Madalena”,
gravada por Martinho da Vila em 1986, para a manutenção das bandas de congo, administradas
pelo incansável Antônio Rosa.

Reconhecido como um homem bondoso tanto na cultura quanto na advocacia, Tackla era
conhecido por apoiar colegas de profissão. Na década de 1990, quando poucos advogados
tinham computador, ele cedia seu próprio escritório para que outros pudessem peticionar.

Tackla faleceu em 2016, aos 62 anos, vítima de câncer. Foi o primeiro delegado da
OAB-ES na Serra, antes mesmo da criação da subseção local.

A obra de Tackla que o vereador CEA deseja censurar é uma tela de grandes proporções
exposta em um dos murais da Câmara da Serra. A pintura retrata, com riqueza de detalhes,
as fases da execução do negro escravizado Chico Prego, considerado o principal líder
da Insurreição do Queimado. A tela mostra três momentos da execução ocorrida em 
11 de janeiro de 1850: o enforcamento; em seguida, o feitor pendurando-se sobre 
o corpo de Chico Prego; e, por fim, o carrasco cortando a corda, atirando o corpo
ao chão e esmagando-o com um pedaço de madeira.

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Tela de Tackla representa a execução de Chico Prego.

## **O que diz CEA?**

O vereador do Republicanos protocolou no dia 27 de agosto um ofício na Câmara Municipal
da Serra solicitando a retirada de imagens expostas nos corredores da Casa de Leis
que retratam cenas de enforcamentos e violências históricas contra negros. No documento,
ele argumenta que tais imagens não trazem esperança, mas dor, e que o espaço adequado
para esse tipo de exposição seria um museu, onde poderiam ser vistas dentro de um
contexto histórico.

O parlamentar afirmou sentir-se desrespeitado e não acolhido ao transitar diante
dessas lembranças no ambiente institucional. Segundo ele, a presença dessas representações
impacta profundamente a vivência e a representatividade. Por isso, pediu a remoção
das obras não como “apagamento da história”, mas como sinal “de empatia, sensibilidade
e respeito” à dignidade dos parlamentares e cidadãos que frequentam a Câmara.
