# Opinião | Animais não são coisas

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- Published: 2019-10-01T13:54:07-03:00
- Author: Gabriel Almeida

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Em seu texto, Silvana Andrade, da Anda, fala que devemos mais do que desculpas aos
animais; devemos salvá-los para salvarmos a nós mesmos como espécie. Foto: Pixabay

Em seu romance ‘A insustentável leveza do ser’, o escritor tcheco Milan Kundera 
diz que o verdadeiro teste moral da humanidade são as suas relações com aqueles 
que estão à mercê de sua vontade: os animais.

Ao contrário do que pensa o senso comum, a discussão sobre os direitos dos animais
não é um modismo de militantes e intelectuais românticos. Já na Grécia Antiga, o
filósofo e matemático Pitágoras (séc. V a.C.) foi o primeiro a criticar a matança
de animais e o consumo de carne: “Enquanto os homens continuarem massacrando animais,
eles também permanecerão matando-se uns aos outros”. No entanto, tempos depois, 
Aristóteles de Estagiara (séc. IV a.C.), o filósofo que afirmava ser o homem um “
animal político”, considerou os animais inferiores aos seres humanos.  Foi essa 
visão de que os animais não-humanos eram inferiores porque não tinham alma, ou porque
eram desprovidos de razão que por séculos alicerçou a crença ocidental no direito
do homem de tiranizá-los. Remando contra a corrente, no século XVI o filósofo francês
Michel de Montaigne (1553-1592) retomou a ideia de Pitágoras de que quanto mais 
os animais eram massacrados, mais bárbaro o ser humano se tornava.

Montaigne, entretanto, pregava no deserto. Só no século XVIII a questão dos direitos
dos animais voltaria a ser discutida. O escocês John Oswald (1730-1793), por exemplo,
escreveu que se cada ser humano tivesse que testemunhar a morte do animal que ele
come “a dieta vegetariana seria muito mais popular”.

Mas foi o inglês Jeremy Bentham (1749-1832), o pai do utilitarismo, quem primeiro
sistematizou sobre os direitos dos animais. Ele argumentava que o fato de o animal
ser considerado “irracional” não nos dá o direito de oprimi-lo, como defendia o 
francês René Descartes (1596-1650). Para Bentham, a questão é se o animal é capaz
de sentir dor (e prazer), como os humanos, e essa deveria ser, segundo ele, a medida
para tratarmos seres de outras espécies. Em defesa de seu argumento, Bentham dizia
que se a racionalidade fosse um critério válido, pessoas com necessidades especiais
também deveriam ser tratadas como coisas. “A questão é: eles sofrem?”, afirmava.

O tema dos direitos dos animais só deixaria de ser uma preocupação exclusivamente
filosófica para se tornar um movimento global a partir dos anos 1970. Tudo começou
quando um grupo de acadêmicos de Oxford questionou o status de inferioridade dos
animais em relação aos humanos. Entre eles estava o psicólogo Richard D. Ryder, 
que cunhou o termo “especismo” para designar a ideologia da superioridade do animal
homem sobre os demais. O grande destaque dessa época foi o australiano Peter Singer,
da Universidade de Princeton, que em 1975 escreveu o livro Libertação Animal, por
muito tempo considerada a “bíblia” do movimento dos direitos dos animais. Adepto
do utilitarismo, ele defende o princípio da igualdade entre seres sencientes humanos
e não-humanos.

Suas posições seriam contestadas por outros ativistas da causa animal, como os americanos
Tom Regan e Gary L. Francione. Este último diz que o utilitarismo se limita a exigir
condições “humanitárias” para os animais, não excluindo sua criação para servir 
de alimento aos humanos, desde que não sejam maltratados. Francione defende que 
enquanto a condição de propriedade de animais por seres humanos não for abolida,
seus direitos não poderão ser garantidos. Já Tom Regan define os animais não-humanos
como “sujeitos-de-uma-vida” e por isso defende que eles deixem de ser usados como
alimento, diversão (caça) ou experiência (testes científicos). Para Regan, não podemos
tratar os animais como meios para nossos fins, mas como fins em si mesmo.

Pouco antes de morrer, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) viu um 
cocheiro chicotear selvagemente seu cavalo. Desesperado, o autor de Assim falava
Zaratustra abraçou o pescoço do animal e começou a chorar, como se pedisse desculpas
ao cavalo pela agressão do dono.

Devemos mais do que desculpas aos animais; devemos salvá-los para salvarmos a nós
mesmos como espécie. Não há contradição, mas sinergia entre o humanismo e a defesa
dos animais. A libertação animal é essencial à libertação humana, pois, como lembrou
Milan Kundera no romance citado, foi na relação opressiva dos seres humanos com 
os animais que ocorreu a falha fundamental da nossa espécie, tão fundamental que
dela decorreram todas as demais.

**_Silvana Andrade é jornalista e presidente da ANDA (Agência de Notícias de Direitos
dos Animais)_**
