# “Não querem ver os filhos da classe média alta atrás das grades”

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- Published: 2018-07-13T08:49:07-03:00
- Author: Ana Paula Bonelli

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Fabiano Contarato disse que chegou a liberar 9 corpos num só dia por acidente no
ES. Foto: Divulgação

_Yuri Scardini_

_Essa semana o Tempo Novo entrevistou Fabiano Contarato, que se destacou na delegacia
de trânsito e por um breve momento comandou o Detran-ES. Ele se desincompatibilizou
dos cargos públicos para articular sua candidatura a senador pela Rede de Marina
Silva. Contarato destaca os erros na legislação, que segundo ele, geram impunidade
e estimula a imprudência no trânsito. Confira:_

**Como pré-candidato ao Senado, qual a diferença do seu projeto político de hoje
em relação ao de 2014, que você declinou?**

Falando de forma pessoal, meu pai era motorista de ônibus da viação Alvorada, minha
mãe semianalfabeta e somos seis filhos, eu o mais novo. Eu agradeço muito pela família
que eu venho e pelos valores que me foram passados. Fui muito criticado lá no passado
quando ensaiei porque a política está muito suja. Sofri muita pressão até de familiares,
e naquele momento decidir declinar. Então eu acho que perdi o medo e não quero mais
permanecer omisso.

**Qual foi sua motivação para entrar na política?**

Em todo o Estado, eu era responsável pela liberação de vítima fatal por acidente
de trânsito. Tinha dias que eu liberava nove vítimas fatais; o último lugar onde
um pai pensa em procurar o filho é no DML, que cheira a morte. E o pior, eu recebi
uma carga emocional muito forte porque essas pessoas me faziam perguntas que quem
tinha que responder era o legislador. Então percebi que o buraco era mais embaixo.

**Que tipo de perguntas?**

Por exemplo: “a minha filha morreu e o motorista não fez o teste do bafômetro, foi
entregue a Habilitação dele, foi devolvido o carro, o delegado fixou mil reais de
fiança; a vida da minha filha vale mil reais?”. Essas perguntas são de responsabilidade
do Congresso Nacional, que infelizmente banaliza a vida humana em detrimento ao 
poder econômico e patrimonial. Não é à toa que o Brasil ostenta a 2º ou 3º colocação
mundial em mortes no trânsito, e o ES é o 2º estado com maior índice de mortes no
trânsito.

**Por que de tanta tragédia no trânsito?**

O poder público falha na fiscalização, não tem mais blitz nas ruas. Falha no processo
educacional. A Lei diz que “a educação para o trânsito será promovida nas escolas”
e isso não é cumprido. E falha na legislação. São 11 crimes no Código de Trânsito,
o pior é o homicídio e se condenado ninguém vai ficar preso. O Código Penal determina
que substituam as penas de prisão, quando o crime é culposo (sem intenção de matar),
mesmo quando o motorista está sob efeito de álcool e drogas. Ai entra em cena prestação
de serviços à comunidade, limitação do fim de semana e doação de cestas básicas.
É a certeza da impunidade.

**Existe solução para esses problemas?**

No Brasil a Lei é feita de forma permissiva para garantir a certeza da impunidade.
E o Congresso Nacional só representa os interesses de grupos, e não a população,
especialmente a mais pobre. Por isso que matéria de trânsito eles legislam dessa
forma porque não querem ver os filhos da classe média alta atrás das grades. É necessário
mudar as leis para garantir a punição.

**O senhor foi um dos que defendeu a Lei Seca. Houve resultados objetivos?**

Está desidratada porque de seca ela não tem nada. O Congresso sabe fazer a indústria
de multa. Se você se recusar a fazer o bafômetro em uma blitz, já vai ter que pagar
R$ 3 mil e a suspensão da Carteira por um ano. Se não pagar, vem no seu IPVA, no
licenciamento, então você tem que pagar. Agora, para suspender a Carteira, tirar
o mau motorista das ruas, isso não é importante para o legislador, porque coloca
que você tem seis instâncias para recorrer. Eu fazia parte do Conselho Estadual 
de Trânsito, existem motoristas alcoolizados, parados em blitz há cinco anos, e 
que estão dirigindo até hoje. Então eles sabem legislar naquilo que convém.

**Qual seria a punição adequada para estes motoristas?**

Envolver-se em acidente por uma mera fatalidade não é a mesma coisa que um motorista
bater em um racha ou embriagado, sob efeito de drogas e que excede velocidade com
o pneu careca e mata um chefe de família. Tem que dar tratamento igual a comportamento
igual; isso não é o que está sendo feito, estão colocando todo mundo como mero acidente
de trânsito, e isso transfere para as famílias das vítimas o que eu batizo de mortes
simbólicas.

**O que isso significa?**

Eu atendi a um pai e mãe que vinham liberar o corpo da filha no DML, passavam três
meses e só vinha a mãe. Eles tinham se separado. O Estado não dá apoio psicossocial
para essas famílias e elas se desmancham pela dor, como se fossem culpados; então
havia a morte do matrimônio, que é um desdobramento do acidente de trânsito e não
entra nas estatísticas. Um avô que perdeu uma neta, que era o xodó, entra em um 
processo de depressão, um irmão que sente a falta da irmã; começa a ficar rebelde
e se envolve com coisas erradas. São mortes, que doem tanto quanto a morte real 
e que infelizmente, não entram nas estatísticas. No Brasil o único condenado é a
família da vítima, que sofre pela dor da perda e pela certeza da impunidade. Sem
contar os impactos financeiros nas contas públicas, que poderiam estar sendo destinados
a outras coisas.

**Pode explicar melhor?**

Esses motoristas imprudentes e certos da impunidade são pessoas que estão no ápice
da produtividade e que vai sobrecarregar o INSS com auxílio-doença ou pensão por
morte. Não é justo que se pague essa conta em cima de uma elevada carga tributária
da irresponsabilidade de quem mata no trânsito por ter feito uso de álcool, por 
exemplo. E você vê aí o problema na área previdenciária.  
