# Literatura e memória: Mantendo acesas as chamas do Queimado

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- Published: 2021-03-20T18:15:04-03:00
- Author: Gabriel Almeida

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**_Joana Herkenhoff_**

A Lula Rocha, Zumbi contemporâneo,

hoje no quilombo definitivo.

_In memoriam_

Um dia desses, fui ver o Sítio do Queimado, velho conhecido de muito ouvir falar
e visitado ultimamente com certa frequência, por meio de estudos e leituras que 
venho realizando na minha nova casa, espaço de aquilombamento e liberdade aqui na
Serra, a Residência Literária Roda d’água, no Centro Cultural Eliziário Rangel.

Ver não seria suficiente para definir a experiência. Melhor dizer que fui sentir
o Queimado, pois há uma mística, uma energia que emana daquele chão, que convoca
todos os sentidos. Em sintonia com a aura do lugar, as aves, na mata à espreita,
piam pios estranhos, como se quisessem espantar intrusos que poderiam macular algo
intocado que remanesce ali, nas paredes, no que resistiu ao tempo, no silêncio que
guarda o eco dos gritos: “Liberdade!” “Alforria!” e nas impressões digitais dos 
irmãos negros que, pedra sobre pedra, construíram a igreja com matéria feita pra
durar: sonho, utopia, desejo de cambiar o mundo e luta por justiça. Lá se vão 172
anos.

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A historiadora Lavínia Coutinho, no livro **Revolta do **** Queimado: Negritude,
Política e Liberdade no Espírito Santo**, de 2020, faz uma leitura a contrapelo 
da história, defendendo que a construção da igreja foi uma ação de micropolítica
e negociação, em que os negros intentavam conseguir suas cartas de alforria, em 
contraposição à história oficial que atribui ao frei italiano Gregório de Bene, 
que lhes teria prometido a liberdade em troca do seu trabalho na obra, o protagonismo
da ação. Não obtendo seu intento, partiriam para o enfrentamento. A repressão foi
dura, prenunciando que a caçada daqueles dias se prolongaria no _continuum d_o tempo,
nos alerta Edileuza Penha de Souza da UNB, por meio do extermínio programático da
população negra.

➢      _LIVRO _Revolta do Queimado de Lavínia Coutinho

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(O livro pode ser adquirido com a autora: laviniacardoso@yahoo.com.br)

**COM SUAS PALAVRAS-PEDRAS, A LITERATURA TEM O PODER DE PREENCHER OS DESVÃOS E ROMBOS
DAS PAREDES DA VELHA IGREJA**

Com suas palavras-pedras, a literatura tem o poder de preencher os desvãos e rombos
das paredes da velha Igreja, dar vida aos personagens e manter viva a chama do Queimado,
ameaçada pelos apagamentos, sequestros e silenciamentos que rondam a história de
grupos, cuja memória social é marcadamente oral, que estão ainda em processo de 
construção de memória coletiva escrita, para participar, com direito a voz, das 
disputas em torno da recordação e da tradição, nos termos de Le Goff. Para esse 
teórico, a memória social é uma forma de pertencimento cultural e sobrevivência 
étnica, daí a importância do registro escrito, que comporta um desejo de memória
e permanência.

No primeiro registro histórico do movimento, **Insurreição do Queimado: episódio
da história da província do Espírito Santo (**1884), de Afonso Cláudio (1859-1936)
já é noticiado o sumiço de documentos, como os registros do apressado julgamento
dos insurretos e de um auto escrito pelo frei italiano, lamentando que intelectuais
e escritores contemporâneos ao evento, como o Padre João Clímaco, não tenham escrito
ao menos um poema histórico, que pudesse subsidiar pesquisas. Como registro literário
da época, o autor recolheu a quadrinha:

Os pretos cativos

Querendo ser forros

Usavam cabelos

d’altura dos morros

 

Pomada d’Ulanda

Fazia murrinha

Em cima do couro

Da carapinha.

 

Camisa engomada

Chapéu de Lemar**^( (1))**          **^((1))** aba da frente levantada.

Diziam que os negros

Iam-se acabar.

 

Sapatos de sola

Que faz ringido **^((2)                       (2))** ruído do sapato novo.

Andavam na roça

Como os dotô **^((3))**

(ROSA, 1979, p. 59-60).

Os versos apresentam o cabelo como signo identitário de empoderamento negro, além
da indumentária domingueira que os negros passaram a envergar naqueles dias de luta
em que se autoproclamaram livres.

A lenda **_“A árvore negra do Queimado”_**, de Maria Stela Novaes, de 1968, traz
o imaginário em torno de Elisiário, considerado a cabeça da rebelião, da qual Chico
Prego foi coração e braço. Elisiário, o nosso Zumbi, conseguiu fugir da cadeia, 
reza a lenda que por intercessão de Nossa Senhora da Penha, e se aquilombou nas 
matas do Queimado, não tendo sido nunca encontrado, inspirando lendas de que seu
fantasma assombrava os fazendeiros da região do Queimado.

**BENEDITA TORREÃO DA SANGRIA DESATADA:**

**A MULHER NEGRA COMO PROTAGONISTA**

 

João Felício dos Santos, carioca autor de romances inspirados na história, como 
_Ganga Zumba _(1962), e _Xica da Silva_ (1976), filmados por Cacá Diegues, publica
a partir de farta pesquisa histórica e linguística, **Benedita Torreão da Sangria
desatada** (1983). Nessa obra, a partir do relato histórico do chefe de polícia 
indicando uma mulher entre os insurgentes, o autor constrói sua trama, inserindo
Benedita como protagonista na resistência negra, por meio da realização de abortos
para impedir o nascimento de novos cativos e também na organização do levante.

**O Templo e a Forca **(1999), romance do historiador e escritor Luiz Guilherme 
Santos Neves, gira em torno da palavra e do engano na comunicação entre o frei e
os negros. De caráter metalinguístico e autorreflexivo, o romance questiona a história
e indaga os porquês das injustiças e violências cometidas no levante. Aí temos também
momentos de exaltação lírica, que conferem grande apelo poético à obra.

**O CORDEL DE TEODORICO BOA MORTE: DO LUGAR DA SUA EXPERIÊNCIA DE MILITÂNCIA, FALA
A VOZ ANCESTRAL SILENCIADA.**

 

Assim como os estudos citados de Edileuza Penha e Lavínia Coutinho se diferenciam
da produção historiográfica tradicional por sua perspectiva afrocentrada, **Insurreição
do Queimado em poesia**, de Teodorico Boa Morte (1999), também estabelece diferenças
em relação à produção anterior sobre o Queimado, pelo seu lugar de fala. Boa Morte
é poeta e compositor com 6 (seis) cordéis publicados sobre a Serra, e é, segundo
Michel Dal Col Costa, homem mestiço, possivelmente descendente de escravos do Queimado,
que busca pela arte o retorno a suas raízes.

Na sua voz, incontida, indignada, enunciada do lugar da sua experiência de militância,
fala a voz ancestral silenciada. Assim podemos inscrever sua obra na chamada “literatura
afro-brasileira”, conceito desenvolvido pelo professor Eduardo Assis Duarte da UFMG,
para identificar a produção literária de brasileiros descendentes de africanos, 
pela conjunção de critérios como autoria, temática, ponto de vista, linguagem e 
destinação a um público leitor afro-brasileiro. Teodorico leva a história de Queimado
às escolas da rede pública da Serra e onde mais o chamarem, comprometendo-se em 
manter acesa a chama do Queimado:

E assim busco a memória

Pra arrancar mais dados

Fazer narrar a história,

Sem poder ficar calado,

Na terra dos meus encantos

Serra do Espírito Santo

“A Insurreição do Queimado”

(Teodorico Boa Morte)

Precisamos de outras vozes insurgentes que se somem à voz de Teodorico, para a escrita
do que Zilá Bernd denomina a “grande epopeia negra”. Para isso é preciso ações e
políticas que deem visibilidade a essas vozes, possibilitem sua emergência e circulação
por meio do livro e outros suportes, o que na Serra pode ser viabilizado pela Lei
de Incentivo à Cultura que, não por acaso, se chama “Lei Chico Prego”.

**COM SUAS PALAVRAS-ASAS, A LITERATURA PODE. PODE MUDAR A HISTÓRIA. PODE PRODUZIR
NOVAS REALIDADES **

Com suas palavras-asas, a literatura pode. Pode mudar a história. Pode produzir 
novas realidades, libertar Chico Prego da forca, construir na mata um quilombo para
Elisiário, João e Lula Rocha. Pode mais que construir possíveis, pode nos devolver
o direito de sonhar, tão necessário nesses dias em que nos tem faltado ar para respirar.
A literatura pode construir espelhos onde nossa juventude negra possa se mirar, 
ver o passado e projetar o futuro.

**Referências**

BERND, Zilá. _Introdução à literatura negra._ São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

BOA MORTE, Teodorico_. Insurreição do Queimado em poesia de cordel_. 6. ed. Vitória:
Grafita, 2011.

CARDOSO Lavínia Coutinho. _Revolta do Queimado: _Negritude, Política e Liberdade
no Espírito Santo. Curitiba: Apris, 2020.

COSTA, Michel Dal Col. O épico de Teodorico Boa Morte. In BOA MORTE, Teodorico_.
Insurreição do Queimado em poesia de cordel_. 6. ed. Serra: Gráfica Chiristiani,
1999.

DUARTE, E. A. Literatura afro-brasileira: um conceito em construção. In: Estudos
de Literatura Brasileira Contemporânea. Nº 31. 2008.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Trad. Bernardo Leitão et al. 5. ed. Campinas,
SP: Editora da Unicamp, 2010.

NEVES, Luiz Guilherme Santos. _O templo e a forca._ Serra/ES: Formar, 2019.

________. _Duas histórias fascinantes_: Queimado: revolta em solo capixaba; Caboclo
Bernardo:  herói do Rio Doce. Il. Walter Francisco de Assis. São Paulo: Nova Alexandria,
2009

ROSA, Afonso Cláudio de Alvarenga. _Insurreição do Queimado_: episódio da história
da província do Espírito Santo. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1979.

SANTOS, João Felício dos. _Benedita Torreão da Sangria desatada._ Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1983.

SOUZA, Edileuza Penha de. _Tamborizar:_ história e afirmação da autoestima das crianças
e adolescentes negros e negras através dos tambores de congo. Dissertação (Mestrado).
Universidade do Estado da Bahia, 2005.

**_Para ver: _**

 * FILME** A revolta dos escravos** (2004, Dir. João Carlos Coutinho 50’)

ACESSE AQUI

[**https://clerioborges.com.br/assista-o-filme-completo-sobre-a-revolta-dos-escravos-do-distrito-do-queimado-em-1849/**](https://clerioborges.com.br/assista-o-filme-completo-sobre-a-revolta-dos-escravos-do-distrito-do-queimado-em-1849/)

 * VÍDEO-POEMA: **Poema de Ana Paula Perpétuo **(Ifes Serra)

    ```
    ACESSE AQUI https://www.instagram.com/tv/CMkbHqkJBCh/?igshid=7sqjx6py102y
    ```

 * DOCUMENTÁRIO **Insurgências**

    ```
    ACESSE AQUI https://www.youtube.com/watch?v=K5F64CyEj_4
    ```

**_Para Ler_**

    ```
    Para as crianças de todas as idades conhecerem a lenda de Elisiário
    ```

 * LIVRO: **Terra Lendária**. (Published on Oct 5, 2019) Livreto independente contendo
   algumas lendas do Espírito Santo, ilustradas. De Dayana Seschini Nascimento

ACESSE AQUI https://issuu.com/dayseschini/docs/terra_lend_ria_digital

    ```
     Para os leitores adolescentes e jovens leitores de todas as idades
    ```

![](https://www.portaltemponovo.com.br/wp-content/uploads/2021/03/4.jpg "4")

**_Para ouvir_**

 * PLAYLIST – **Quilombo Lula Rocha**

ACESSE AQUI: [https://open.spotify.com/playlist/74iaHLW4UHseFRBS0jy6IP?si=ekrx_FQHR2ClXx_7hLg8qw&utm_source=whatsapp](https://open.spotify.com/playlist/74iaHLW4UHseFRBS0jy6IP?si=ekrx_FQHR2ClXx_7hLg8qw&utm_source=whatsapp)

 
