# Fuga de presidiários na Serra acende alerta sobre Contorno do Mestre Álvaro

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- Published: 2023-09-08T11:45:07-03:00
- Author: Yuri Scardini

[⌊CPD da Serra está a 130 metros de distancia do Contorno do Mestre Álvaro. ⌉⌊CPD
da Serra está a 130 metros de distancia do Contorno do Mestre Álvaro. ⌉[

CPD da Serra está a 130 metros de distancia do Contorno do Mestre Álvaro. Crédito:
Google Earth.

Na última quarta-feira (06), [sete presidiários fugiram do Centro de Detenção Provisória da Serra (CDPS)](https://www.portaltemponovo.com.br/sete-traficantes-e-assassinos-fogem-de-presidio-na-serra-veja-quem-sao/)
que fica localizado no distrito rural de Queimado. Até o momento, não foram divulgadas
informações de recaptura. Todos os fugitivos tinham passagem por homicídio, o que
deixa as comunidades rurais da região apreensivas. Esse episódio também acende o
alerta sobre a proximidade da nova rodovia do Contorno do Mestre Álvaro com o CDP,
o que pode ter ajudado os fugitivos.

Ainda não se sabe exatamente as circunstâncias da fuga, porém, foi divulgado que
os sete criminosos conseguiram acessar o pátio externo da unidade prisional por 
uma abertura de ventilação. A fuga só foi descoberta pelas autoridades durante a
contagem de presos. Evidentemente o episódio carece de maiores investigações internas,
das quais a Secretaria de Segurança Pública já informou que está em processo de 
apuração.

Porém, em um âmbito geral, a construção do Contorno do Mestre Álvaro, previsto para
ser inaugurado no final desse ano, permitirá que a faixa oeste da Serra, que compreende
os distritos rurais de Queimado e Calogi, sejam acessados pela infraestrutura rodoviária
mais moderna do Espírito Santo. Do muro dos fundos do CDP até a nova pista são apenas
130 metros de distância.

Até então, as rotas de acesso ao CDP da Serra eram estradas de terra batida, esburacadas
e estreitas, o que permitia limitadas alternativas para hipotéticas ações visando
a liberação de presidiários, já que ações estruturadas com veículos em comboio, 
por exemplo, seriam facilmente identificadas. Com o Contorno do Mestre Álvaro, a
coisa muda de patamar. Até porque já houve tentativas de invasão ao CDP da Serra.
Para ilustrar, em novembro de 2015 ocorreu um tiroteio na frente da unidade, mas
que não resultou em sucesso para os criminosos. Na época, os suspeitos chegaram 
pelas matas e foram dispersados pelos agentes penitenciários.

Segundo informou o policial penal e presidente do Sindicato dos Inspetores Penitenciários
do Espírito Santo (Sindaspes), Rhuan Fernandes, recentemente a unidade da Serra 
sofreu transferência de cerca de 20 servidores para o Complexo Penitenciário de 
Xuri, em Vila Velha, provocando uma defasagem na vigilância da unidade da Serra.
De acordo com Rhuan, esse fato “com certeza” contribuiu para a fuga dos sete presidiários.
Esse ocorrido serve de alerta a respeito da nova dinâmica que a região oeste da 
Serra terá. Na verdade, embora a rodovia esteja prevista para ser inaugurada no 
final do ano, ela já é acessível em vários trechos, dos quais as obras já foram 
finalizadas. Trata-se de uma estrada de rodagem com pistas largas, feitas não de
asfalto, mas de concreto, que suportam maior impacto do tráfego pesado.

Após inaugurada, a BR-101 será transferida para o Contorno do Mestre Álvaro, ressignificando
o uso das áreas de Calogi e Queimado; e junto com elas, o CDP da Serra, colado à
rodovia. Para agravar, a unidade está de costas para a nova pista, o que em tese
a deixa ainda mais vulnerável. Tudo isso a reboque do aumento da atividade de facções
criminosas no Espírito Santo que gradualmente emergiram nos morros da capital, Vitória,
ajudadas por organizações criminosas cariocas, passando a funcionar como uma espécie
de filiais.

Além disso, as denúncias de superlotação e problemas diversos na unidade são constantes.
Em 2019, por exemplo, o então vereador Cabo Porto denunciou no Tempo Novo que o 
presídio – que tem capacidade para 548 presos – estava na época com 956. Ele denunciou
também que trabalhavam 132 funcionários, sendo que o número ideal seria em torno
de 200. Na mesma reportagem, a advogada Vanessa Santa Barbara, presidente da Comissão
de Direitos Humanos da 17ª Subseção OAB/ES, referendou os dados e classificou a 
situação como “alarmante”. Em outro caso, em 2022, o CDP da Serra precisou pedir
a transferência de detentos para outras unidades prisionais, pois estariam envolvidos
em um princípio de motim.

Em outro caso, mais recente, a Secretaria de Justiça do Espírito Santo (Sejus) instaurou
no início de 2023 um processo administrativo disciplinar (PAD) contra 19 inspetores
penitenciários que atuaram no CDP da Serra. A suspeita é de que eles não respeitavam
a carga horária estabelecida para seus plantões. Todas essas questões, e muitas 
outras já presentes, são itens que podem se tornar ainda mais problemáticos após
a inauguração do Contorno do Mestre Álvaro, quando o CDP será integrado à malha 
rodoviária da BR-101.

#### **Histórico**

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Centro de Detenção Provisória da Serra: Foto: Divulgação

O CDP da Serra foi inaugurado em julho de 2009, quando ainda nem havia previsão 
de construir a nova rodovia – apesar de o projeto remontar aos anos 1980. Na época,
foi uma resposta tardia do Governo do Estado diante do colapso carcerário que a 
Serra enfrentou por décadas. Tal processo foi resultado do boom populacional registrado
desde os anos 1960, quando o Porto de Tubarão foi construído; situação potencializada
após 1980 com a inauguração da antiga Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), atual
ArcelorMittal. A abrupta industrialização, seguida da urbanização regular e irregular,
fez com que a Serra saltasse de 9 mil habitantes em 1960 para mais de 400 mil no
início dos anos 2000, sem que a estrutura prisional acompanhasse tal crescimento.

Por anos, o DPJ de Laranjeiras e o extinto DPJ de Jacaraípe serviram improvisadamente
como pequenos presídios irregulares, o que acarretou em múltiplos casos de violência,
fugas e tiroteios nas regiões vizinhas. Contudo, nada foi pior do que aquilo que
ficou conhecido como ‘Cadeião’, que era uma estrutura feita de celas metálicas em
contêineres, localizado no meio do bairro de Novo Horizonte, local que no passado
funcionou como uma pequena delegacia. Entre os anos de 2007 e 2009, o Cadeião foi
objeto de diversas denúncias internacionais. A Organização das Nações Unidas (ONU)
chegou a visitar a Serra para acompanhar o caso.

A construção do CDP da Serra foi uma das soluções para a desativação do Cadeião.
Atualmente, a maioria dos casos de pessoas que cometem crimes na Serra são encaminhadas
ao Presídio de Triagem em Viana; de lá, são enviados para outras unidades de acordo
com critérios técnicos, como disponibilidade de vagas, tipo de crime e periculosidade
dos acusados. Como já indica o nome da unidade da Serra, trata-se de um presídio
provisório, destinado a presos que ainda aguardam julgamento.
