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De marca da besta a feto abortado: pastores da Serra espalham mentiras sobre vacina contra Covid-19

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Gabriel Almeidahttps://www.portaltemponovo.com.br/
Morador da Serra, Gabriel Almeida é repórter do Tempo Novo há seis anos. Atualmente, o jornalista escreve para diversas editorias do portal.

Culto em igreja: alguns pastores têm se demonstrado contrários a vacinação. Foto: Reprodução | Internet

Descartando a ciência e acreditando em falácias, lideranças religiosas da Serra têm esquentado o movimento antivacina, principalmente quando se trata da imunização contra o coronavírus. Seja nas redes sociais ou nos palanques de suas igrejas, pastores e padres começaram a discutir, juntamente com seus fiéis, a imunização ou não contra a doença que já matou quase 200 mil brasileiros. Nas conversas, há de tudo um pouco: teorias de que o imunizante seria “a marca da besta” – uma referência ao livro de Apocalipse na Bíblia – e até o compartilhamento de fake news como, por exemplo, que a vacina é testada em fetos humanos abortados.

Mas o compartilhamento em massa de mentiras relacionadas às vacinas não acontece somente na Serra, no Espírito Santo e no Brasil. O movimento ganhou força em todo o mundo, principalmente após as polarizações políticas, ativadas por lideranças, como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O TEMPO NOVO recebeu denúncias durante as últimas semanas. Em alguns casos, fiéis chegaram a ter discussões calorosas com suas lideranças, que encaminharam fake news em grupos de WhatsApp das igrejas e foram expulsos das comunidades digitais logo em seguida.

Em um dos prints recebidos pela reportagem, uma pastora da Serra diz o seguinte no texto encaminhado: “Os movimentos antivacina existem, pois elas são feitas com fetos humanos”, insinuando que abortos são feitos para a produção. E ainda completa: “As vacinas não são seguras. Não houve tempo suficiente para testar”. No caso, as duas afirmações já foram desmentidas por profissionais da saúde e cientistas.

Outro discurso que tem sido disseminado por pastores, inclusive dentro dos templos religiosos, é que a vacina contra o coronavírus “é a marca da besta”, ou que seria uma “preparação para a marca da besta”. A fala tem como referência uma passagem bíblica situada no livro de Apocalipse. Num dos textos bíblicos, está escrita a seguinte frase: “E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na mão direita ou na testa, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome”.


Pastora espalha desinformação em grupo de WhatsApp. Foto: Reprodução


De acordo com as lideranças religiosas, a movimentação para a vacinação obrigatória contra o coronavírus seria a justificativa para crer que a profecia bíblica estaria se cumprindo. Em canais nacionais do YouTube, radicais de direita e apoiadores do presidente Bolsonaro compartilham mensagens sobre o mesmo tema em vídeos com milhares de visualizações. Em todos os casos, nenhuma prova verdadeira é apresentada para se acreditar no movimento antivacina.

Uma das fontes ouvidas pelo TEMPO NOVO contou a experiência de ter discordado da sua liderança religiosa. “Tudo ocorreu no Natal, quando a pastora encaminhou um vídeo para o grupo da igreja dizendo mentiras sobre a vacinação. Fiquei preocupada com a saúde de quem fosse acreditar naquilo e logo discordei, mas com educação. Após alguns textos, ela insistiu que as vacinas não eram seguras e me excluiu do grupo, dizendo que eu estava confundindo as pessoas por ser ‘formada por professores comunistas’”, explicou a moradora, que pediu para não ser identificada e que, desde então, não frequenta mais o templo.


Liderança religiosa insinua que vacinação é uma preparação para a “marca da besta”. Foto: Reprodução


Fora da Serra, mas ainda no Espírito Santo, o ex-senador e pastor bolsonarista, Magno Malta também tem se mostrado contrário à vacinação. Nas suas redes sociais, ele vem gravando vídeos afirmando que não tomará a vacina contra o coronavírus. Magno tem grande influência nas igrejas neopentecostais, inclusive na cidade serrana. As publicações do ex-senador foram marcadas com aviso de “informações falsas” pelo próprio Instagram.

Socióloga demonstra preocupação com falas de autoridades religiosas

A reportagem conversou com Fabíola Cerqueira, que é socióloga e professora da Serra. Ela comentou sobre os impactos que falas de líderes religiosos, seja de qual for a religião, têm na vida de muitas pessoas. De acordo com a especialista, a negação da ciência e o espalhamento de fake news precisam ser devidamente identificadas e os responsáveis, punidos pela Justiça.

“Um líder religioso se constitui como uma referência de vida para seus seguidores, que os procuram por aconselhamento sobre as diferentes áreas da vida. Logo, tudo o que é falado por esses líderes se torna verdade, e seguir as orientações é fazer a vontade de Deus. Com isso, os líderes religiosos ganham uma importância social e, durante a pandemia, seus discursos sobre a vacina podem causar para a coletividade quando difundem informações equivocadas sobre a vacina contra o novo coronavírus, colocando em dúvida sua eficácia e instigando seus seguidores a não se vacinar”, destacou.

Fabíola ainda cobra punição para quem espalha mentiras. “Os seguidores desses líderes religiosos espalham essas ‘verdades’ e colocam todos em risco em nome de uma fé cega em fake news. Penso que quem as divulga deve ser devidamente responsabilizado e obrigado a desmentir o que espalhou. E os líderes religiosos deveriam se conscientizar da sua importância na sociedade como promotores de vida e não de morte. Negar a ciência hoje, nesses tempos sombrios, é promover a morte dos mais frágeis”, afirmou a socióloga.

Vacinas são seguras, alerta médico da Serra

Em matéria publicada pelo TEMPO NOVO no último dia 6 de janeiro, Gustavo Peixoto saiu em defesa da ciência e disse que a vacinação é a “única saída” contra a pandemia, que já matou quase 200 mil brasileiros, sendo 665 moradores da cidade. Peixoto é médico cirurgião, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e diretor Unimed Vitória.

Ainda de acordo com ele, a ‘imunidade de rebanho’ – que também foi defendida por Bolsonaro e radicais de direita – é uma “verdadeira barbárie”. Nas redes sociais, o doutor vem defendendo abertamente a vacinação contra o coronavírus. Em conversa com a reportagem, ele reafirmou sua certeza de que as vacinas são seguras e que trarão benefícios para os brasileiros, principalmente no controle da pandemia.

De acordo com Gustavo Peixoto, é um alívio saber que temos vacinas eficazes já aprovadas em outros países. “A vacinação é a única saída racional e científica para essa tragédia humanitária chamada Covid-19. Fora da vacina, a imunidade de rebanho é verdadeira barbárie. É um alívio e muita satisfação saber que existe disponibilidade de vacinas eficazes pelo mundo a fora que podem acabar com a pandemia, em pouco tempo, inclusive. Essas vacinas possuem diversas tecnologias que são oriundas de esforços da ciência por muitos anos. Por sorte, esse vírus é vacinável”, disse o médico.

Peixoto ainda salientou que embora não haja estudos sobre os efeitos a longo prazo da vacina contra o coronavírus, pesquisas iniciais mostram que a probabilidade de danos é baixíssima e os resultados positivos, gigantescos.

“Embora não tenhamos estudos definitivos de longo prazo, já temos estudos iniciais mostrando que a probabilidade de danos com a vacina é baixíssima, e também menor que os efeitos da pandemia. As vacinas mostraram que, independente da tecnologia usada, evitam casos graves e evitam mortes por Covid-19, além de evitar a transmissão do vírus”, afirmou.

Gabriel Almeidahttps://www.portaltemponovo.com.br/
Morador da Serra, Gabriel Almeida é repórter do Tempo Novo há seis anos. Atualmente, o jornalista escreve para diversas editorias do portal.

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