# Catolicismo recua na Serra e, pela primeira vez em dados oficiais, evangélicos são maioria

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- Published: 2025-06-09T16:20:00-03:00
- Author: Yuri Scardini

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Mais de um século depois, a paisagem religiosa serrana vive uma profunda transformação:
os evangélicos superaram o catolicismo e agora representam a maior parcela da população.
Crédito: Pexels

Em novembro de 1875, quando a então vila da Serra foi elevada à categoria de cidade,
os sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição tocaram alto para celebrar
o marco. Naquele tempo, o catolicismo estava no centro da vida social, cultural 
e política do município. Na ocasião, o extinto jornal O Espírito-Santense estampou
um texto assinado por um grupo de serranos influentes que comemoravam o feito. O
texto se encerrava com a seguinte palavra de ordem: “Viva a Serra e viva a Igreja
Católica!”.

Mais de um século depois, a paisagem religiosa serrana vive uma profunda transformação:
os evangélicos superaram os católicos e agora representam a maior parcela da população.
Esse fenômeno reflete uma tendência nacional, marcada pelo crescimento do público
evangélico e pela redução da presença católica — embora, no Brasil, os católicos
ainda sejam maioria (caindo de 65% em 2010 para 56,7% em 2022/ já os evangélicos
saltaram para 26,9% dos brasileiros em 2022, ante 21,7% em 2010).

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É o que revelam os dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o levantamento, 40,11% da população da
Serra se declara evangélica, enquanto 35,67% se identificam como católica apostólica
romana. Isso significa que, dos 446.310 habitantes recenseados, 179.396 se declararam
evangélicos e 159.547, católicos.

Já os moradores que afirmaram não ter religião somam 15,76% — a terceira parcela
mais expressiva. O restante da população se divide entre outras religiosidades (
7,01%), espíritas (0,73%), praticantes de Umbanda e Candomblé (0,58%), tradições
indígenas (0,02%), além daqueles que não souberam ou preferiram não declarar sua
fé (0,12%).

## 2010 x 2022

A comparação com os dados de 2010 ajuda a dimensionar a mudança. Naquele ano, a 
Serra ainda era majoritariamente católica (40,2%), mas os evangélicos já despontavam
com força, somando 39% (24,1% pentecostais e 14,9% não pentecostais). Pessoas sem
religião representavam 16,4% da população com 15 anos ou mais. Ou seja, a virada
evangélica já estava em curso e foi consolidada agora, em 2022.

Esse deslocamento religioso na Serra acompanha fenômenos sociais, migratórios e 
urbanísticos vivenciados nas últimas décadas. O crescimento populacional intenso
a partir da década de 1960 trouxe à cidade novas comunidades e práticas culturais.
A instalação de igrejas evangélicas em bairros periféricos e a atuação ativa de 
lideranças religiosas nas comunidades ajudaram a consolidar essa mudança. No campo
oposto, o catolicismo, que historicamente ocupava uma posição hegemônica, passou
a disputar fiéis em um ambiente mais plural e competitivo.

Além da mudança no número de fiéis, os dados de 2022 também revelam nuances importantes:
as mulheres são maioria entre os evangélicos (55,56%), enquanto os homens predominam
entre aqueles que se declararam sem religião (55,74%). Já em termos de raça ou cor,
a fé evangélica tem forte presença entre pretos (41,73%), pardos (41,87%) e indígenas(
45,24%), enquanto o catolicismo ainda predomina entre os brancos (42,96%).

A Serra que nasceu católica, cresceu evangélica e abriga, cada vez mais, um mosaico
de crenças, reflete o dinamismo cultural e social do município mais populoso do 
Espírito Santo. A fé, embora diversa, continua sendo um elemento essencial na construção
da identidade serrana — seja a fé secular, anterior à década de 1960, marcada por
tradições fortes como as festas de São Benedito nas comunidades antigas de Pitanga,
Nova Almeida, Manguinhos e Serra Sede; ou nesta Serra que emergiu com a industrialização,
sendo empurrada para a urbanidade muitas vezes sem o devido acompanhamento do poder
público. Em ambos os momentos, o que permanece inalterado é a importância estruturante
da religião na vida social do morador serrano.

## No Espírito Santo

De acordo com dados apurados pelo [TN](https://www.instagram.com/jornaltemponovo/),
ao contrário da Serra, a maioria da população capixaba ainda é católica, mas o fenômeno
da queda no número de adeptos também se confirma nos dados gerais do estado. O Espírito
Santo, historicamente de maioria católica, apresenta agora um cenário de maior equilíbrio
entre os principais grupos religiosos.

Atualmente, 1.596.617 capixabas se identificam como católicos apostólicos romanos,
o que representa pouco mais da metade da população recenseada. Esse número, no entanto,
representa uma redução expressiva de quase 15% em relação a 2010. Em segundo lugar,
aparecem os evangélicos, com 1.181.988 adeptos. O crescimento evangélico no Espírito
Santo, embora constante, foi bem menos intenso do que o verificado especificamente
na Serra. Em relação a 2010, o grupo evangélico no estado registrou um aumento modesto
de apenas 1,5%. Ainda assim, católicos e evangélicos concentram a ampla maioria 
dos vínculos religiosos em solo capixaba.

A terceira maior parcela da população é composta por pessoas que afirmaram não ter
religião, somando 385.418 indivíduos. Outros grupos religiosos também marcam presença
no Espírito Santo: 124.959 pessoas se declararam vinculadas a outras religiosidades;
30.188 seguem o espiritismo; 14.113 praticam Umbanda ou Candomblé; e 1.035 indicaram
vínculo com tradições indígenas. Além disso, 4.349 capixabas afirmaram não saber
ou preferiram não declarar sua crença.

Em termos proporcionais, a Serra aparece apenas na 17ª posição entre os municípios
capixabas com maior percentual de evangélicos. Embora esteja atrás de cidades como
Santa Maria de Jetibá (73,53%) e Laranja da Terra (72,88%) em termos percentuais,
a Serra é líder em números absolutos, com a maior população evangélica efetiva do
Espírito Santo.

Embora não seja o foco habitual desta coluna, cabe um adendo: o alto percentual 
de evangélicos em municípios com forte presença da imigração europeia — especialmente
alemã e pomerana, como Santa Maria de Jetibá, Laranja da Terra, Vila Pavão e Pancas—
tem raízes históricas e culturais profundas.

Grande parte dos imigrantes que chegaram ao Espírito Santo a partir da segunda metade
do século XIX, especialmente alemães e pomeranos, professava o protestantismo luterano.
Vindos do norte da Alemanha e da região da Pomerânia, onde o protestantismo já era
predominante desde a Reforma do século XVI, esses grupos trouxeram consigo suas 
práticas religiosas, que resistiram à hegemonia católica no Brasil e se mantêm vivas
até hoje, influenciando diretamente o perfil religioso dessas cidades.

## Informações extras

• Entre os católicos apostólicos romanos, há um equilíbrio entre os sexos: 49,1%
são homens e 50,9% são mulheres.

• Já no grupo dos evangélicos, as mulheres são maioria: 55,56% contra 44,44% de 
homens. Esse dado reforça uma tendência nacional já observada em levantamentos anteriores,
de maior adesão feminina às igrejas evangélicas.

• No grupo dos que se declaram sem religião, os homens predominam: representam 55,74%,
enquanto as mulheres somam 44,26%. Esse dado pode estar associado a uma menor identificação
com estruturas religiosas formais entre os homens.

• Entre os brancos, 42,96% se identificam como católicos, enquanto 35,47% são evangélicos.
Apenas 0,5% desse grupo segue Umbanda ou Candomblé.

• Já entre os pretos, há maior adesão ao evangelismo: 41,73%, contra 29,43% de católicos.
Neste grupo, a prática de Umbanda e Candomblé é mais expressiva, com 0,82%.

• Na população parda, que representa uma parcela significativa dos moradores da 
Serra, 41,87% são evangélicos e 33,85% são católicos. A prática de religiões de 
matriz africana soma 0,54%.

• O grupo amarelo (pessoas de origem asiática) apresenta maior índice evangélico,
com 57,12%, e 26,45% de católicos. Não houve registro de seguidores de Umbanda ou
Candomblé entre os amarelos.

• Já os indígenas na Serra têm 45,24% de evangélicos, 31,27% de católicos, e uma
expressiva proporção de 3,92% ligados a Umbanda e Candomblé — o maior índice entre
todos os grupos raciais analisados.
