Mestre Álvaro | Portal Tempo Novo

Serra, 18 de Janeiro de 2019

Portal Tempo Novo - O Portal da Serra, ES

Mestre Álvaro

por Eci Scardini

Campanha rumo ao Anchieta

Yuri Scardini

O Prefeito da Serra Audifax Barcelos (Rede) já fixou como objetivo o Palácio Anchieta. Propósito mais do que justo, uma vez que administra pela terceira vez a maior cidade do Espírito Santo. Entre coisas que Audifax terá que romper está esse paradoxo entre a grandeza econômica e populacional da Serra, mas que nunca redundou em liderança política estadual.

No meio do caminho para o Anchieta, tem também sua sucessão na Serra em 2020, cláusula importante para chegar em 2022 com condição de se estabelecer como uma força significativa no tabuleiro político estadual. Porém, alguns contextos são favoráveis para Audifax sonhar com a cadeira de governador.

O prefeito busca polarizar com o governador Renato Casagrande (PSB), e o motivo está no vácuo de liderança antagônica deixada pelo declínio político do ex-governador Paulo Hartung (sem partido). Objetivamente, na ausência de Hartung como antítese à Casagrande, imaginava-se que o deputado Carlos Manato (PSL) assumiria a condição, mas não há sinais de que isso vá ocorrer. Audifax viu aí uma oportunidade.

Ao jogar o deputado Bruno Lamas (PSB) para escanteio na sua linha de sucessão e liderar esse movimento de prefeitos que reivindicam os convênios firmados com Hartung, Audifax inaugura seu movimento de contrapeso à Casagrande. Surfando no vácuo de oposição, o prefeito aposta que o Governo de Casagrande não será popular. Assim como foi com Hartung, que nem sequer conseguiu colocar um sucessor na disputa eleitoral.

Medidas de austeridade fiscal, contexto político nacional polarizado e imprevisível, aumento da pobreza, desemprego ainda sangrando, violência, possível retorno de períodos de secas, entre outras tendências devem impor à Casagrande muito desgaste ao longo dos próximos quatro anos. Como o eleitor,às vezes, não separa alho de bugalho, Casagrande é a vidraça da vez no ES e Audifax quer estar com o estilingue na mão. Agora, o que o prefeito precisa é estar colado a um projeto nacional de expressão eleitoral, pré-requisito para se colocar na disputa.

Bons agouros culturais

Bruno Lyra

O ano de 2019 começou com bons sinais para a cultura e música na Serra. Um deles, a aparição do menino Jeremias, de 11 anos, que emocionou o Brasil ao interpretar Sementes do Amanhã, de Gonzaguinha, durante estreia no programa The Voice Kids da TV Globo.  Classificado para as próximas fases do programa, Jeremias é de um dos bairros de maior vulnerabilidade social da Serra: Central Carapina. Lá obteve aulas de música através da Rede Aica, Ong especializada no atendimento a crianças e adolescentes carentes há 20 anos.

E como era de se esperar, políticos da Serra aproveitaram para colar suas imagens à do garoto. Assim fizeram o prefeito Audifax Barcelos (Rede) e o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT), antes aliados, agora ferrenhos adversários.

Outro sinal positivo é o projeto Grave-me, iniciativa do estúdio da Sonorus Produções, pilotado pelo casal morador de Laranjeiras Golias e Sara Engelhardt. Trata-se de um banco de composições inéditas de artistas locais, que fica disponível para músicos e cantores interessados em gravá-las. Um estímulo e tanto para a música local.  

E como não falar do show do mestre da MPB Beto Guedes, que rolou em Manguinhos no último sábado (12). A apresentação do mineiro formado no lendário Clube da Esquina rolou durante o Festival MPB Manguinhos, na área do restaurante Chico Bento.  Uma dádiva para os ouvidos, que já estavam acariciados pelas excelentes apresentações dos capixabas dos grupos Quarto Crescente e Beco 48, que abriram o Festival, realizado pelos moradores da Serra e produtores culturais Assis Borges e Dão Borba.  

Alías, Manguinhos tem tradição em receber ícones da música. Já se apresentaram no charmoso balneário lendas como Toquinho, Lô Borges, Geraldo Azevedo e Boca Livre.  Por isto, mais do que justo que Manguinhos seja o palco para o show de aniversário de 21 anos da banda serrana Black Set, no próximo dia 26 de janeiro.

Idealizada pelo compositor, arranjador, músico, figurinista e empresário de Chácara Parreiral, Romero Mendonça, a Black Set é marca registrada na noite capixaba com som swingado e dançante e que já gravou até com Guilherme Arantes. A noite do aniversário da banda também será no Chico Bento e terá companhia dos capixabas Macucos e Claudio Bocca. 

Sedução e risco da Serra

Por Yuri Scardini

Com a ausência do prefeito Audifax Barcelos (Rede) que não pode se reeleger somados ao misto de enfraquecimento político e chance de inelegibilidade do deputado Sérgio Vidigal (PDT), a eleição na Serra em 2020 pode ser a mais aberta entre as principais cidades do Estado.

Multiplicando esses fatos políticos com as características sociológicas que forjaram a Serra urbana de hoje, com migrações em massa acarretando em grandes bolsões de pobreza e falta de identidade com o município e sentimento de pertença, forças políticas externas olham para a Serra com lupa nos olhos, babador no pescoço e a boca cheia d’água.

Não é para menos, vitrine política de 500 mil habitantes, 1.000 cargos comissionados e orçamento bilionário são dois motivos que encantam os sedentos por poder. Apesar de haver sim, um cansaço da população com a dobradinha Vidigal e Audifax que já dura mais de duas décadas, há de se fazer justiça. Ambos estarão na estante dos prefeitos históricos da Serra.

São duas figuras progressistas, que conduziram o desenvolvimento econômico na cidade e alavancaram o município à condição de locomotiva econômica e ao mesmo tempo investiram no social e na estruturação dos bairros com unidades de saúde e educacional, só para citar. Mesmo que sejam adversários, provém de um mesmo ideal. E essa onda de renovação não pode varrer o passado e o legado de cada um.

O eleitor quer mudanças, é justo. Mas mudanças pelo simples fato de mudar pode ser uma solução desastrosa com doses cavalares de irresponsabilidade. Na ausência de Vidigal e Audifax, políticos que nem sequer moram na Serra, e que não têm absolutamente nenhum vínculo com a cidade podem tomar pra si uma prefeitura responsável por meio milhão de pessoas. O exemplo mais contemporâneo é o apresentador e deputado federal eleito Amaro Neto (PRB), mas até 2020 vai aparecer mais gente com tais intenções.

A Serra é um dos lugares mais antigos do Brasil, mas enquanto fenômeno urbano é jovem. A cidade precisar continuar com líderes que entendam os processos históricos que nos permitiram chegar até aqui, a essência de quem somos, do nosso ethos como um povo pertencente a um coletivo. A evolução é de dentro pra fora. Tanto Audifax e Vidigal representam isso, e agora se inaugura um novo ciclo que precisa estar de portas fechadas ao neopopulismo demagógico.

Com a matança em queda

Por Bruno Lyra

A Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp) divulgou na última semana o número de assassinatos em todo o Estado e também por município no ano de 2018. E apesar de ainda manter a liderança em números absolutos com 187 casos, a Serra teve recuo de 40% e pela primeira vez em 23 anos não lidera os percentuais de homicídios, medidos a cada grupo de cem mil habitantes. Com taxa de 36,2, a cidade ficou atrás de Linhares, São Mateus e Cariacica.

Nos últimos anos, os dados oficiais vêm apontando queda de assassinatos da Serra, mesmo com o pico de casos durante a greve da PM em fevereiro de 2017. Curioso é o fato da queda acontecer num momento de retração econômica, onde além da crise nacional sentida com força a partir de 2014, o Espírito Santo sofreu com a paralisação da Samarco (2015), desinvestimentos da Petrobrás, mudança nas regras de distribuição dos royalties, fim do Fundap e superseca. Locomotiva da economia capixaba, a Serra sentiu o baque.  Tudo isso conjugado com a precarização paulatina da assistência social. Enfim, um extenso contexto de empobrecimento, que quase sempre vem acompanhado de mais tensão social.

Mais do que crise conjuntural, a cidade não tem neste período nenhum grande projeto que gerasse crescimento populacional por imigração, tal como aconteceu nas décadas de 1970 e 1980 com a implantação da Vale do Rio do Doce (Vale) e CST (ArcelorMittal Tubarão), além dos Civits I e II. Crescimento que seguiu com a expansão das duas gigantes da siderurgia no início do séc XXI e com o boom imobiliário.  

O comando da PM na cidade, diz que uma das explicações para a queda dos homicídios nos últimos anos é a apreensão de armas de fogo ilegais, estatística em que a Serra é líder. E também o foco na prisão de homicidas que atuavam nos bairros com maior histórico de assassinatos. Faz sentido.

Há também que se considerar a estruturação da Guarda Civil Municipal. A presença dos agentes na rua pode ajudar a reprimir ações criminosas.  Outras ações do município como melhoria da infraestrutura urbana em bairros e regiões mais vulneráveis também não podem ser desprezadas como inibidoras da matança. Até a expansão da segurança privada e a proliferação formal e informal de videomonitoramento somam nesse cenário.

Resta saber se menos violência irá redundar na atração de novos investimentos e oportunidades para a Serra.

Farejos políticos de 2020

Por Yuri Scardini

É hora de dar adeus a 2018 e olhar para 2019. O que esperar desse ano no campo político da Serra?  Nesse início é hora de reorganizar as forças no tabuleiro. Mas há muitas dúvidas, naturalmente. O certo é que 2019 será tempo de ganhar musculatura política-eleitoral e viabilizar as condições para chegar competitivo em 2020.

O prefeito Audifax (Rede) olha com lupa o orçamento e a máquina pública. Ele sabe que as entregas de obras e uma gestão de resultados são cláusulas sine qua non para entrar firme na disputa pela Prefeitura através de um sucessor político. Ele conta com algumas cartas na manga. Entre elas, a boa condição fiscal do município, que permite a tomada de empréstimos. 2019 deve ser ano da Serra se transformar em canteiro de obras com dopping de R$ 300 milhões em investimentos, fruto de operação de crédito.

Nesse início de ano Audifax exonerou todos os quase 1000 comissionados e oxigena a máquina pública com novos e até velhos nomes. Entre eles, coronel Nylton Rodrigues para a Defesa Social é o favorito no grupo do prefeito para tomar a rédea da sucessão. A partir de algo o militar tem que provar sua viabilidade eleitoral. Mas a conjuntura política atual permite sonhar com essa possibilidade.

Já no campo adversário, o deputado federal Sérgio Vidigal (PDT) teve um 2018 péssimo. Processos na Justiça e decisão do Tribunal de Contas podem deixá-lo inelegível. Além disso, o Ministério Público questiona suas contas de campanha. Politicamente se isolou devido ao equívoco de lançar a esposa para deputado estadual, e por tabela, candidatura que falhou nas urnas. Vidigal precisa reciclar o discurso, as práticas e reorganizar seu grupo que desmantelou. Mas ele ainda é o Vidigal, uma das forças mais consideráveis do Estado.

Emergente é Bruno Lamas (PSB). Recém-anunciado como Secretário Estadual de Desenvolvimento Social, num contexto de aumento da pobreza e desmanche das políticas sociais. Bruno quer surfar rumo a Prefeitura empurrado pelo aliado, o governador Renato Casagrande, dono da caneta de R$ 18 bilhões em orçamento. Ainda é uma incógnita a relação Bruno e Audifax, mas sabe-se que não haverá meio termo. Ou são aliados ou adversários.

Outras forças expressivas desenham seu espaço no tabuleiro. O deputado Vandinho Leite (PSDB) come quieto e costura pelo bastidor. Pensa em política 24h e sabe enxergar as melhores oportunidades. Vai estar no jogo.

Dúvida é o PSL, partido do presidente Bolsonaro que se organiza para abocanhar prefeituras, mas estará condicionado a resultados minimamente aceitáveis a nível nacional. Será que se sustenta o raso discurso de dualidade entre direita e esquerda numa eleição local?

Detectando trabalho e renda

Por Bruno Lyra

Das atividades que podem gerar postos de trabalho na Serra em 2019, estão as obras para reduzir o pó preto de Vale e ArcelorMittal em Tubarão. Somadas, as duas devem abrir 2,5 mil postos temporários até 2023, data prevista para entrega das obras. Sem contar que deve ativar rede de fornecedores e prestadores de serviços em empresas satélites localizadas nos polos empresariais da cidade.

E ainda que o setor mínero siderúrgico venha dando sinais estruturais de declínio no ES, a escolha do ex-diretor da Vale Aimar Fiuza para presidir o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), sugere que podem vir novidades.

Há investimentos públicos municipais, estaduais e até federais com potencial para movimentar o mercado de trabalho.  Nos próximos dois anos, o município anunciou R$ 400 milhões em obras públicas, em que pese o corte de convênios anunciado pelo governador Casagrande em seu 1º dia do novo mandato.

Do estado se espera retomada de obras importantes iniciadas no mandato anterior de Casagrande, como o Contorno de Jacaraípe  e o colégio Aristóbulo. Do Governo Federal, destaque para a duplicação de trecho da BR 262, que embora não seja uma rodovia que corte a Serra, interliga com a 101 no Trevo da Ceasa favorecendo o parque empresarial e logístico que a cidade detém ao longo da rodovia do Contorno.

Fica ainda a expectativa de que a concessionária Eco comece a duplicação do trecho da BR 101 entre Serra-Sede e Fundão que deveria ter sido entregue em maio de 2017. Obras de duplicação da BR estão aceleradas entre as cidades de Viana, Vila Velha e Guarapari. Outra esperança é que o Governo Federal inicie o Contorno do Mestre Álvaro.

Novas vagas de trabalho e investimentos podem pintar também com o incentivo para novos empreendimentos que contratarem na Serra anunciado pela prefeitura, que agora terá o experiente José Eduardo Azevedo para comandar o Desenvolvimento Econômico.

Depois de anos difíceis, o varejo da cidade ficou mais animado neste final de 2018 e também nutre a esperança de mais vendas em 2019. A construção civil, que experimentou bonança na virada das décadas de 2000/2010, é outro setor que pode gerar postos de trabalho caso engrene novamente. 

 

Vale manda na casa capixaba

Por Bruno Lyra

O novo governo de Renato Casagrande (PSB) só começa na próxima terça-feira (01) mas já tem uma grande polêmica na área ambiental. É que no último dia 21 de dezembro foi anunciado o nome do engenheiro mecânico Alaimar Fiuza para dirigir o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), órgão responsável pela emissão de licenças ambientais, fiscalização e gestão das reservas naturais sob gestão do Estado.

O problema é que Alaimar trabalhou mais de 30 anos na Vale. Lá ocupou cargos de gestão. A mineradora é a principal responsável pelo famigerado pó preto na Grande Vitória, sendo uma das maiores poluidoras não só do ES como também do país. Basta lembrar que  a Vale é, ao lado da BHP Billiton, dona da Samarco, mineradora cujo rompimento da barragem em Mariana MG há três anos contaminou (e segue contaminando) o rio Doce e o litoral capixaba com rejeitos da mineração.

Não chega a ser surpresa que a Vale tenha um homem que já integrou seus quadros apitando na política ambiental do ES. Até porque o Iema funciona numa área que era da mineradora em Cariacica e foi cedida ao Estado. Mas que é ruim para a credibilidade dessa nova gestão  Casagrande, ah, isso é. Como o Governo poderá ir vir à público dizer que trata de forma isonômica a Vale e demais empreendimentos causadores de impactos ambientais negativos?

Desde a década de 1980, a empresa acumula multas milionárias aplicadas pelo próprio estado e prefeituras de Vitória e Serra por poluição do Complexo de Tubarão. A Vale não paga os débitos, mesmo assim segue tendo suas licenças ambientais renovadas sem problemas.

Nos últimos anos o Estado foi muito generoso com a empresa. Concedeu licença para  construção da 8ª usina em Tubarão em 2008, mesmo sob questionamentos do aumento de pó preto e das implicações disso para a saúde e patrimônio de terceiros.

O caso do rio Doce é emblemático. Quase nada das multas pagas, milhares de atingidos ainda sem receber reparações, processo criminal contra diretores suspenso, nenhum tipo de punição.  Num momento em que a governança ambiental sofre duro ataque e deve ter retrocesso ainda maior na gestão Bolsonaro, a escolha de Alaimar desnuda o que se tentou dissimular nos últimos anos: primeiro o interesse do setor mínero-siderúrgico, depois a saúde e qualidade de vida dos capixabas.

Inspirador fazedor de obras

Por Eci Scardini

Gerson Camata sai da vida para entrar na história. Radialista, jornalista, mas principalmente político. Foi vereador, deputado estadual, federal, governador e senador por três mandatos. O ex-assessor ressentido talvez seja a única ranhura em sua brilhante e vitoriosa carreira. Camata, que se notabilizou por ser conciliador, não conseguiu conciliar esse ressentimento e acabou sendo vítima dele. Foi assassinado com um tiro, disparado pelo ex-assessor Marcos Venício.

De origem italiana, Camata destoava da fama de ‘sangue quente’ que os italianos carregam consigo, mas fez jus à fama de conversador. Ele adorava contar ‘causos’, era uma especialidade. Outra marca pessoal era a de ‘filar’ um cigarro de alguém durante esses ‘causos’. Isso virou lenda aqui e em Brasília.

Mas foram os quatro anos que passou no Palácio Anchieta como governador que os fizeram tornar-se inesquecível. De março de 1983 até final de dezembro de 1986, a marca de Camata é a de fazedor de obras.

A Serra e o amigo prefeito daquela ocasião, João Baptista da Motta, que o digam. Pelas mãos de Camata iniciou-se o Hospital Dório Silva, impulsionou-se o sistema Transcol, ajudou na expansão do sistema de abastecimento de água (a caixa d’água da Cesan, em Jardim Limoeiro foi em sua gestão). Liberou recursos para a construção de mais de uma dezena de escolas, mais de 20 unidades de saúde, colaborou com Motta na construção de infraestrutura de muitas ruas e bairros da Serra.

No Estado deixou um legado que foi o prosseguimento da construção da terceira ponte, hospital em São Mateus; muitas obras de eletrificação rural, de pavimentação ligando cidades. Expandiu para o interior o acesso à água tratada. Enfim, um legado de obras inquestionável.

A vida é efêmera. Mas as realizações de Camata, bem como o estilo de vida política, pessoal e familiar, estarão nos registros históricos, sempre de forma positiva, servindo de inspiração para a atual e futura geração de políticos e de pessoas.

 

Um coronel na fila

Yuri Scardini

O Prefeito da Serra Audifax Barcelos (Rede) vai mudar 7 secretários. Número muito expressivo e que dá um sinal do que se esperar para os próximos dois anos. O primeiro e mais emblemático é na Defesa Social. Sai Jailson Miranda e volta o coronel Nylton Rodrigues que ocupou o cargo até 2016.

Foi na Serra que o militar ganhou notoriedade no meio político e o alçou ao comando geral da Polícia Militar em 2017 no meio da paralisação da PM. O chamado fevereiro sangrento. Nylton virou nome de confiança do governador Paulo Hartung e chegou à poderosa Secretária Estadual de Segurança Pública.

Esse histórico chama atenção. O currículo de Nylton parece demais para voltar a ocupar uma secretaria municipal de Defesa Social, mesmo se tratando da Serra. No estado, Nylton comanda 11 mil policiais militares, sem contar a polícia civil, o corpo de bombeiros e outras unidades, além de gerenciar um orçamento de R$ 2 bilhões.

Na Serra o coronel vai liderar pouco mais de 100 guardas municipais e um orçamento de R$ 28 milhões. Chega a soar como um retrocesso no auge da carreira de Nylton. Mas o que levaria ele a aceitar o cargo? O futuro é claro. Nylton se consolidou dentro do grupo de Audifax como o 1º na fila de sucessão política do prefeito. O coronel é midiático, conhece as comunidades da Serra, parece ser durão, mas é político, e está conectado com essa onda de sucesso eleitoral de militares.

Além dele, o prefeito vai mudar a secretária de Obras. Com R$ 400 milhões para investimentos, Audifax conta com as obras para chancelar seu sucessor. O cotado é Zacarias Carrareto. Outra secretaria que vai sofrer mudanças é a de Desenvolvimento Econômico com José Eduardo Azevedo, atual secretário estadual. O meio empresarial gostou da troca, e já se planeja ações de incentivos fiscais e desburocratizações para atrair empresas e gerar emprego.

E é exatamente na Secretária de Trabalho, Emprego e Renda que vem outra surpresa. O ex-deputado Roberto Carlos (Rede) vai assumir o posto. Audifax quer dar um upgrade na pasta. Só para citar um exemplo, as empresas que receberem os incentivos fiscais estarão condicionadas a contratar serranos através do Sine, órgão subordinado a Roberto Carlos. Audifax muda também a pasta de Educação e tira a influência da família Lamas na área e passa para um quadro técnico com Gelson Junquilho.

Um parque e 10 anos de história

Bruno Lyra

Localizado entre os bairros Laranjeiras e Valparaíso, o Parque da Cidade acabou de completar dez anos. Marco da urbanização mais recente da Serra tem como mentor e idealizador o prefeito Audifax Barcelos (Rede), que entregou a obra durante seu primeiro mandato (2005 – 2008) à frente do município.

O Parque é uma das principais marcas de Audifax. No início, tinha mais a cara de um ‘pração’, com muito concreto e pouco verde.  Mas ao longo dos anos mudou principalmente, após a chegada do biólogo Nagib Neto para gerir o espaço. Além de enriquecer o local com plantas ornamentais, nativas e exóticas, implantou bromeliário e jardim de restinga.

Os equipamentos de lazer, quadra de esportes, pista de caminhada, brinquedos infantis, máquinas para musculação, dentre outros, tornou o local paulatinamente mais frequentado pelos moradores não só dos bairros do entorno como também de outras partes da cidade e até de fora da Serra.

Público que só fez aumentar com a ocorrência de eventos noturnos, festivais de comida de rua, cerveja, festas infantis e shows musicais. No Parque já se apresentaram grande nomes nacionais da música, como o conjunto 14 Bis e, na semana passada durante a celebração dos 10 anos do local, o músico Jorge Vercillo.

A anunciada expansão do Parque, com a incorporação de terreno às margens da Av. Guarapari em Valparaíso, implantação de ponte sobre o córrego Laranjeiras e de mais um ponto de acesso, será um presente para quem frequenta o local.

Quando foi projetado, o Parque previa uma represa no córrego Laranjeiras. Mas a poluição do mesmo, que recebe esgoto tratado pela Ambiental Serra/Cesan da Estação de Valparaíso, impediu e impede isso até hoje. É um gargalo a se resolver.

Outro é do problema de assaltos, que volta e meia aparece no entorno dos acessos e, eventualmente, até no interior do Parque. Que ainda foi palco de polêmica por conta da liberação da construção de prédio no entorno. Críticos apontaram que a beleza cênica e a qualidade de vida oferecida pelo espaço foram apropriados por meia dúzia em detrimento de toda a população que pagou a obra.

Mesmo assim, tais problemas não apagam o brilho daquele que virou um dos principais – se não o principal – pontos de encontro do maior município capixaba com seu meio milhão de moradores. 

Tensão pré-eleitoral de 2020

Yuri Scardini

Vai chegando o final do ano e estão todos cansados, aguardando as festas e a virada de ano com paz e tranquilidade. Essa pode ser a realidade de alguma cidade do Brasil, mas definitivamente não é da Serra. Aqui, a política está alvoroçada.

O pano de fundo obviamente é a eleição de 2020, mesmo que ainda pareça muito distante. As forças políticas locais estão se reorganizando a partir dos resultados colhidos na eleição desse ano em busca de engordar o capital político nestes dois anos que separam os dois pleitos.

A anunciada aliança entre o prefeito da Serra Audifax Barcelos (Rede) e o deputado Bruno Lamas (PSB), visando à sucessão a prefeitura parece que fez água. A razão fundamental é que Audifax viu em Bruno um aliado perigoso para seus futuros planos políticos. E o racha deve ser concretizado no final do ano, quando é aguardada a exoneração em massa de indicados de Bruno na Prefeitura. Enquanto isso, o prefeito promete renovar seu secretariado e extrair dali seu sucessor.

A família Lamas tem tudo para cair pra oposição, sustentados pelo governador eleito Renato Casagrande (PSB). E é isso que Audifax quer: polarizar com Casagrande e colocar seu nome para governador em 2022.

Outro foco de alvoroço é a situação do ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT). Com grandes chances de estar inelegível, por um processo que corre em 2º instância por nepotismo e/ou pelas contas de 2008 rejeitadas pelo TC-ES. O mercado se pergunta como deve se comportar Vidigal? Ele tem um expressivo capital político na Serra, e invariavelmente estará nas tratativas eleitorais, como candidato ou cabo eleitoral. Falta a Vidigal deixar de lado os interesses familiares e reestruturar um grupo político que se fragilizou em 2018. 

O mercado aguarda também os próximos movimentos do deputado eleito Vandinho Leite (PSDB). Perspicaz político, ele é estrategista e respira política 24h, mas foi vítima de um conjunto de situações que provocaram uma espécie de isolamento. Hoje Vandinho busca um grupo para chamar de ‘seu’ com objetivo de dar suporte à futura candidatura de prefeito.

Com a impossibilidade de reeleição de Audifax e uma possível inelegibilidade de Vidigal, um ciclo de mais de 20 anos pode chegar ao fim em 2020. E essa é a novidade. Esse cenário tem assanhado lideranças ‘externas’. A exemplo o deputado Carlos Manato (PSL), que já foi da Serra e agora ensaia um retorno ao contexto local. Ele diz que vai lançar candidato no município, mas a aposta do mercado é que seja ele mesmo. E agora, surgiu o deputado federal eleito Amaro Neto (PRB), que abriu escritório na Serra e avisou: “Não descarto ser candidato a prefeito da Serra”.

Está ruim e pode piorar mais

Bruno Lyra

Depois da ameaça de ser reduzido a pasta no Ministério da Agricultura, o Ministério do Meio Ambiente será mantido pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Nesta semana Bolsonaro anunciou o nome de  Ricardo Salles, ex-secretário de Meio Ambiente do governo de Geraldo Alckmin (PSDB) entre julho de 2016 e agosto de 2017.  

Também tucano, Salles chega envolto a polêmicas. Uma delas referente ao fato de ser réu em ação civil por ter alterado plano de manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Tietê para supostamente, favorecer interesses empresariais no tempo em que esteve no governo paulista, entre julho de 2016 e agosto de 2017.

Outra pelo fato de ter defendido aprovação rápida da lei que afrouxa o controle de agrotóxicos no país. E ainda por dizer que o estado não deve coibir desmatamento legal e demonstrar dúvida se são mesmo as atividades humanas que estão provocando as mudanças climáticas.

Paulista e advogado, Salles é um dos fundadores do Movimento Endireita Brasil. Caberá a ele gerir uma pasta estratégica para o país. Dono da maior fatia da floresta Amazônica, o Brasil é superpotência mundial da biodiversidade. Por isso é peça central nas negociações internacionais para frear a destruição ambiental que ameaça não só a economia como até mesmo as conquistas da civilização.

A proteção ambiental no país tem como baliza o artigo 225 da Constituição, cuja síntese é a garantia de meio ambiente saudável e equilibrado para que se possa propiciar o bem estar e prosperidade das pessoas que aqui vivem.

Coisa que não vem sendo garantida. Mesmo com arcabouço legal mais rígido e governos mais ortodoxos em relação à questão ambiental a degradação piorou. Os desastres/crimes ambientais de Mariana – MG e Barcarena – PA, o aumento do desmatamento da Amazônia, o enfraquecimento do Código Florestal , a grilagem de terras e degradação das unidades de conservação, o crônico atraso no saneamento atestam o retrocesso. Que o digam os moradores da Grande Vitória que respiram pó preto há décadas.  

É um cenário ruim que pode piorar se a pasta que deveria brigar como leão para a melhoria ambiental virar mera despachante para interesse de grupos interessados em lucro a qualquer preço. O tempo dirá, a saúde dirá, a qualidade de vida dirá.

A nova economia clama por um tributo mais “conectado” 

Por Rafael Aguirrezábal

A necessidade de simplificação tributária é algo próximo de consenso no país. Nesse momento, estão em análise três propostas, que exigirão debate com o congresso, por exemplo, no que tange à atualização dos impostos com a nova realidade da economia, focada nas plataformas digitais e serviços.

Existe um ponto de intersecção entre as propostas em debate, que preveem uma unificação de impostos nas três esferas, consolidados na possibilidade de um IVA (imposto sobre o valor agregado) nacional. Os esforços convergem para um caminho de simplificação necessário é fato, porém ao passo que os setores da economia tradicional serão beneficiados de maneira mais imediata, ainda faltará um olhar mais cuidadoso para a tributação dos setores digitais, de tecnologia e financeiros que vão girar o desenvolvimento do país de maneira progressiva.

É importante pensar em formas de tributar as empresas que fornecem bens e serviços num contexto de economia digital, não só na tributação da renda, mas também no consumo.

Outra necessidade é de que as Administrações Tributárias precisam se modernizar, não só na aquisição e domínio de ferramentas de big data, machine learning e blockchain, mas também na capacitação dos Auditores Fiscais como cientistas de dados.

A resposta não é simples, porém com sua expertise e capilaridade, onde a atividade econômica entre as pessoas de fato acontece, nos mais de 5,5 mil municípios do país, o tributo mais próximo de servir a esse propósito, sem desviar energia do governo federal, acaba sendo o Imposto sobre o Serviço (ISS).

Evidente que há de se debater uma norma padrão para o imposto, em linha com os modelos em análise no Brasil, além de se trabalhar por uma unificação de obrigações assessórias, notas fiscais e documentos de arrecadação e, principalmente, pela consolidação de um sistema eficaz de consórcios para Administrações Tributárias de pequenos municípios, capaz de gerar segurança para o desenvolvimento dessas novas atividades.

Além de ser uma questão vital sobre a simplificação tributária no país, é também um ponto de atenção para garantir coerência com a própria agenda federal, que preza por uma gestão técnica com mais Brasil e menos Brasília.

Rafael Aguirrezábal

Diretor de Assuntos Estratégicos da Associação Nacional dos Auditores-Fiscais de Tributos dos Municípios e Distrito Federal (Anafisco)

“Selando o cavalo”

Por Eci Scardini

O governador Paulo Hartung (sem partido) vai passar o bastão para o seu sucessor, Renato Casagrande (PSB) em 1º de janeiro, mas não vai passar sem deixar uma confusão política armada: ele tem repetidas vezes lançado o prefeito Audifax Barcelos (Rede) candidato a governador em 2022.

Esse movimento de Hartung encheu de brilho os olhos do prefeito, que já manifestou que não tem mais interesse em disputar a Prefeitura da Serra no futuro ou voltar para a Câmara dos Deputados. Logo, Audifax já trabalha na perspectiva de Governo ou Senado.

Nos bastidores sabe-se que o prefeito está gostando deste movimento capitaneado por Hartung e está deixando o mesmo fluir. A cabeça dele já chegou em 2022, sem descuidar dos dois últimos anos do seu mandato e sem deixar de pensar em eleger o seu sucessor.

Ele sabe quais obras irá realizar em 2019 e 2020, que vão sustentar este projeto de sucessão. Também sabe quem estará nos polos opostos: Vandinho (PSDB); Vidigal (PDT) e Manato (PSL), que terá seu tamanho condicionado a resultados positivos do Governo de Bolsonaro. Bruno Lamas (PSB) ainda é um assunto a ser resolvido.

Audifax precisa tomar duas decisões: em qual partido se filiar quando o Rede fundir com o PPS, uma vez que o partido de Marina Silva não alcançou a cláusula de barreira na eleição. A segunda decisão é escolher quem será o seu candidato a prefeito. Provavelmente, as duas decisões serão tomadas juntas ou bem próxima uma da outra e, provavelmente entre fevereiro e março de 2019.

O histórico vencedor de Hartung quanto o de Audifax põe pilha em Casagrande, e já deixa-o vigilante, tendo que ao mesmo tempo governar o Estado, vigiar e tentar diminuir o tamanho de Audifax, turbinar o deputado estadual Bruno Lamas (PSB) para ficar mais competitivo para prefeito e fazer obras na Serra.

Está passando da hora

Mesmo sendo a Serra a força econômica e eleitoral que é; foram poucas as ocasiões que ela foi protagonista na eleição estadual, a partir da redemocratização do país para cá, em 1982. Neste ano, ela figurou com algum destaque com o nome do saudoso José Maria Miguel Feu Rosa figurando como vice-governador na chapa encabeçada por Carlito Von Schilgen. Eleição que foi vencida por Gerson Camata e vice José Moraes.  

A Serra só voltaria a ter um pequeno protagonismo em eleição majoritária em 1998, quando o ex-prefeito João Baptista da Motta abdicou de disputar o senado, abrindo vaga para Paulo Hartung e figurando como primeiro suplente na chapa. Quatro anos depois, em 2002, Hartung disputa a ganha o Governo do Estado e Motta vira senador por quatro anos.

Em 2006 a Serra volta ao topo da política estadual com a candidatura de Sérgio Vidigal (PDT) a governador, enfrentando Hartung na reeleição. Mas teve um desempenho muito aquém do esperado e sofreu uma derrota fragorosa.

Em 2010, não tanto pela sua performance política e eleitoral na Serra, mas sim pelas composições partidárias, Givaldo Vieira, então no PT, colocou a Serra dentro do Palácio Anchieta, sendo o vice-governador de Renato Casagrande.

Quando chegar em 2022, serão 40 anos de redemocratização do país e 10 eleições de governador, vice, senador e deputados federais e estaduais. A Serra pouco protagonizou nas principais disputas, mesmo sendo a força eleitoral que é.

Se de fato a candidatura a governador de Audifax vier a se consolidar, será muito bom para a Serra, principalmente se for uma candidatura robusta e competitiva. Eleger deputado federal e estadual não chega a ser um grande desafio para uma cidade que tem o maior eleitorado do Estado, passando dos 300 mil eleitores.

Poluidora de estimação

Yuri Scardini

A poluidora Ambiental Serra está no foco da insatisfação de muitas comunidades por conta das péssimas condições das águas no município. Desde 2015 a empresa firmou parceria público- privada com a Cesan, e ficou responsável pela ampliação, manutenção e operação do esgoto na Serra.

Até agosto desse ano a Ambiental Serra já foi multada 41 vezes pela Prefeitura da Serra por poluição com danos ambientais. Ao todo os valores das multas já batem a casa dos R$ 2 milhões.

O contrato tem valor estimado de R$ 628 milhões e vigência de 30 anos. Acontece que além das multas, a poluidora parece só investir em obras de coleta de esgoto, já que cada residência ligada à rede paga uma taxa de 80% do valor da água.

Enquanto isso, investimentos na melhoria do sistema de tratamento, que traz o retorno ambiental, social e econômico, segue estacionado. A ETE de Manguinhos que é a mais moderna da Serra foi construída com dinheiro público do programa Águas Limpa do Governo do ES. Já a maioria das outras 20 estações de esgoto são antigas e defasadas, do tipo lagoa de decantação, construídas entre as décadas de 80 e 90. A poluidora não construiu nenhuma nova ETE e nem fez investimentos estruturantes nas outras. Do que adianta coletar se o tratamento é ineficiente?

Adianta só para a empresa, é claro. Segundo a própria, já fora feitas 44 mil conexões de imóveis a rede de esgoto, o que engorda os caixas da poluidora, uma vez que o sistema de contraprestação mensal da Cesan à Serra Ambiental, firmado em contrato, é um cálculo que leva em consideração a quantidade de esgoto coletado e ‘tratado’,  no valor de R$ 1,06 por m³. A empresa diz que são 1 bilhão de litros/mês, o que daria algo próximo de R$ 48 milhões em 4 anos.

Além disso, a poluidora é remunerada mensalmente por uma parcela fixada em contrato, que ao término desse ano deve somar R$ 128 milhões em 4 anos. Por fim, tanto a parcela variável quanto a fixa, são ainda multiplicados por dois índices de desempenho.

A Ambiental Serra era formada por um consorcio entre as empresas Artepa, Mauá e Sonel. Mas desde 2017, foi comprada pela gigante Aegea, que escalou para a presidência, Reginalva Mureb. De lá pra cá a empresa já abocanhou a gestão do esgoto de Vila Velha e agora está de olho grande em Cariacica.

Enquanto milhões estão a rolar, comunidades inteiras sofrem com a imundice dos córregos que desaguam nas praias e nas lagoas. Trazendo problemas de saúde pública e esterilizando setores como pesca e turismo.

Em busca das pistas e sinais

Bruno Lyra 

Não dá para prever como será o governo do presidente eleito Jair Bolsonaro. No entanto, alguns nomes escolhidos para a sua equipe e sinais do próprio Bolsonaro dão pistas do que o Espírito Santo e a Serra podem esperar da União nos próximos anos.  

Uma delas está na escolha do militar Tarciso Gomes de Freitas para o Ministério da Infraestrutura. Ex-diretor do DNIT, Tarciso é um dos articuladores da proposta de que a Vale deva construir ferrovia na região Centro-Oeste ao invés de fazer a linha férrea no litoral sul do ES como contrapartida à renovação da concessão da Vitória-Minas. A proposta atende o agronegócio nacional das commodities, coisa que os capixabas estão praticamente fora.

A não ser pela produção de ovo e café na região serrana, sendo que a segunda está mais ligada a lógica de pequenos produtores organizados em cooperativas. No estado, o forte é a agricultura familiar. Há dúvidas se o governo Bolsonaro irá manter e aprofundar os incentivos ao setor.

Isto por conta do perfil da escolhida para o Ministério da Agricultura: Teresa Cristina, ligada ao agronegócio. Também pelo nome escalado para a Secretaria de Assuntos Fundiários, Nabhan Garcia, presidente da UDR. E ainda pela proposta da incorporação da Secretaria da Agricultura Familiar ao ministério.

A tomada de partido do Brasil na guerra comercial EUA x China é outra frente que pode repercutir aqui. Bolsonaro não esconde o alinhamento automático com os Estados Unidos. Segundo o Sindiex, hoje 5 % das exportações e 23 % das importações do ES são com a China. Não só o estado pode sofrer com o declínio do comércio com os orientais, mas também a Serra, dona do principal parque logístico e industrial capixaba.

Para quem tem economia altamente ligada ao comércio exterior, como a Serra e o ES, é salutar que haja boa condução da política externa, sem paixões ideológicas. Mas o futuro chanceler Ernesto Araújo considera aquecimento global “alarmismo climático” e já falou em combater “pautas anticristãs da ONU”. Pura ideologia.   

Ideologia, aliás, que já falou mais forte na saúde, com a saída dos médicos cubanos. Embora não diga que irá acabar com programas sociais, Bolsonaro defende auditoria no setor, que já deve sofrer com o congelamento de gastos aprovado no governo Temer. Só na Serra, cerca de 100 mil moradores vivem abaixo da linha de pobreza, com renda igual ou menor que R$ 178 mensais. O dado é da secretaria municipal de Assistência Social.      

A equação Audifax e Lamas

Por Yuri Scardini

Após anos de uma aliança duradoura, a relação política do prefeito Audifax Barcelos (Rede) e da família Lamas chegou a uma encruzilhada. Por diversos motivos, houve um afastamento e daqui a pouco tempo, ambos terão que decidir se seguirão de mãos dadas rumo a 2020 ou se vão por caminhos opostos. Essa é uma decisão que terá profundos impactos na geopolítica local.

Humberto Ayres, Márcia Lamas e Bruno Lamas, que são os expoentes da família, sempre foram fundamentais nos governos dos últimos 30 anos e deram sustentação política aos prefeitos que por aqui passaram. Agora, eles entendem que meritoriamente chegou o momento de um de seus consanguíneos, no caso o deputado Bruno Lamas (PSB), ter a chance de disputa a Prefeitura da Serra. Este já parece ser uma decisão irrevogável.

O momento é complexo, no paradoxo da renovação conservadora no Brasil, que fez emergir figuras aparentemente descoladas da política. Bruno terá que convencer uma população de 320 mil eleitores, de que há exceção na política. Desafio superável dado à habilidade de Bruno. Mas sua votação para deputado estadual este ano, ficando abaixo do esperado, acende o sinal da necessidade por reinvenção.

Esse desafio poderá ser encurtado se ao lado de Bruno estiver o prefeito Audifax. Especialista na arte de fazer eleição, e com uma das máquinas mais poderosas do ES na mão. Mas antes, ambos terão que colocar as cartas na mesa. Existe uma história de 10 anos para ser colocada na balança. Bruno tem muita resistência na turma da cozinha de Audifax, e essa é uma barreira que terá que ser superada, caso haja espaço para composição.

Se o caminho for o inverso, aliados do deputado não descartam a hipótese mais radical de liderar um bloco suprapartidário e heterogêneo de oposição, no vácuo deixado pelo declínio político do ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT), que inclusive pode fazer parte desse grupo. Bloco esse que deverá receber apoio do governador eleito Renato Casagrande (PSB), dono de uma caneta de R$ 18 bilhões em orçamento.

Audifax é um estrategista político nato e faz tudo em seu devido tempo. Ele vai dar sinais dúbios até o momento de definir. Verdade é que a dobradinha Audifax/Bruno pode limitar os movimentos dos adversários. Já o inverso pode ser fator propulsor para outros grupos que estão com olho gordo na Serra.          

A conta fica com o pobre

Por Bruno Lyra

A saída dos profissionais cubanos do programa Mais Médicos gera impacto direto na saúde pública da Serra. E impõe a Prefeitura um tremendo desafio: repor os 30 médicos espalhados por unidades de saúde como Nova Carapina, Jardim Carapina, São Marcos, Central Carapina, Nova Almeida, Barcelona, Vila Nova de Colares, Jacaraípe, Taquara, Barro Branco, entre outros.

Isso no contexto de empobrecimento e desemprego, que acaba por levar mais pessoas a depender do SUS. Historicamente, o município tem dificuldade para conseguir profissionais para atuar em determinadas regiões. O prefeito Audifax, por exemplo, já reclamou do desafio em conseguir pediatra para a UPA da Serra-Sede. Outra região que sofre é Nova Almeida.

Dentre os 78 municípios capixabas, a Serra é que mais teve cubanos do Mais Médicos. As vizinhas Vila Velha, Cariacica e Vitória têm, respectivamente, nove, sete e cinco profissionais do país caribenho. 

Já o médico capixaba, assim como ocorre no resto do Brasil, é em boa medida oriundo de família de classe média. Quando não, de classe alta. Não é de se estranhar que rejeite trabalhar em local com fama de violento e degradado, pecha que recaiu sobre a Serra nas últimas décadas, em parte de forma injusta, uma vez que as cidades vizinhas também são problemáticas. Mas o que vale é a fama e a distância. Gente com mais recurso financeiro, como o médico, gosta de morar na zona norte de Vitória e da orla de Vila Velha. Salvo exceções.

Se a conta divulgada pela Folha de São Paulo de cada cubano atende, em média, 3,4 mil pacientes, mais de 100 mil pessoas podem ficar com o atendimento comprometido na Serra. Mas a Prefeitura não confirma os números.

Atuando na saúde básica, os cubanos costumam ser elogiados por quem atendem. Tanto pela qualificação quando pela humanização. É notório o prestígio internacional da medicina cubana. Portanto, a saída de Cuba do Mais Médicos é ideológica; foi provocada pela eleição de Jair Bolsonaro (PSL), que antes e durante a campanha já avisara que não aceitaria os termos atuais do convênio.

É discutível o fato do médico ficar com apenas 30% e o governo de Cuba 70% dos R$ 11 mil/mês que o Brasil paga por profissional. Também seria discutível se o governo cubano não levasse nada, uma vez que banca a formação do médico. O que é indiscutível é o prejuízo ao morador mais carente da Serra e do resto do Brasil onde só cubanos toparam clinicar.

De olho em agradar a plateia

Por Yuri Scardini

A fim de cumprir sua promessa de diminuir o tamanho do Estado, o presidente Bolsonaro vem anunciando várias mudanças nos Ministérios. Medidas assim soam como música aos ouvidos da população, mas objetivamente é jogar para a plateia.

Diminuir de 29 para 17 Ministérios não fará nem cócegas no Orçamento da União. Até porque não adianta reduzir Ministério para lotar repartições públicas de divisórias para caber gente.

É verdade que muitas vezes, as indicações de cargos são para acomodar apadrinhados de um Governo influenciado por políticos e partidos fisiológicos. Esse é o presidencialismo de colisão, que popularmente vem sendo chamado de ‘toma lá da cá’. Prática muita criticada, mas que visa à governabilidade.

Segundo dados do Ministério do Planejamento, o Governo Federal tem 622 mil servidores, dos quais aproximadamente 240 mil estão na ativa, ou seja, mais de 60% são aposentados ou pensionistas. Destes 240 mil, 23 mil são servidores comissionados, nem 10%, e dentre eles ‘apenas’ 11 mil não precisam ser concursados sendo de livre de indicação do presidente.

Número que olhado em perspectiva, não é gargalo em um orçamento de R$ 1.4 trilhão. A título de comparação: A Prefeitura da Serra orçou R$ 1.7 bilhão para 2019 e tem 900 cargos comissionados de livre nomeação. Já no Governo do ES tem cerca de 3.500 comissionados, para um orçamento de R$ 18 bilhões em 2019. Números proporcionalmente muito maiores que o Governo Federal. E se tratando de um Município e Estado equilibrados sob a perspectiva fiscal.

É bom que Bolsonaro corte gente onde der, mas é ilusão que isso tenha algum impacto real no orçamento. Até que ponto vale a pena extinguir ou fundir Ministérios expressivos, como o Trabalho, para ter uma economia módica em um orçamento trilionário?

O problema estruturante para o Brasil segue sendo a Previdência, que em 2019 vai consumir R$ 767 bilhões, aproximadamente 58% do orçamento fiscal do Governo. E disso, pouco vem sendo falado. Ainda mais que os militares representam quase 50% desse valor. Classe que deu apoio incondicional para Bolsonaro.

No Brasil de hoje, não cabe mais jogar para plateia. O PT fez isso por anos, e deu no que deu. O novo Governo tem que encarar a realidade do Brasil, e ela é impopular e misantrópica.

República Federativa do Brasil

Por Bruno Lyra

Nesta quinta feira (15), a jovem república brasileira fez 129 anos. Implantado como sistema político pela primeira vez na Roma antiga (séc. VI a.c.), tem o significado literal de ‘coisa pública’. Ao longo da história o conceito evoluiu e ganhou os moldes atuais com a Independência dos EUA (1776) e Revolução Francesa (1789). 

O direto da população à escolha de seu governante e dos demais representantes no parlamento é pilar da vida republicana. Que se completa pela existência de um judiciário que ao mesmo tempo em que deve ser independente dos dois primeiros, completa a tríade de poderes emanados do povo.

Esse direito de escolha dos governantes está no voto, que qualquer brasileiro com 16 anos ou mais pode exercer. Branco, negro, índio, misturado. Homem, mulher, transgênero. Mas nem sempre foi assim. Quando instalada a república no país em 15 de novembro de 1889, só votavam homens. Por exemplo, as mulheres só puderam votar após a década de 1930. 

Outro pilar fundamental da república é a Constituição. Foram seis em nosso período republicano, a mais recente é de 1988. Regimes autoritários sempre se tornam desafio para a república. Foi assim com o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937 – 1945) e com a Ditadura Militar (1964 – 1985). Neste último, por exemplo,  perdeu-se o direito de votar para presidente, governador e prefeito. Fora a censura à liberdade de imprensa, de pensamento, artística e de atuação política.

Nos 129 anos de republicanismo, o Brasil teve nove presidentes militares e 28 civis. O próximo mandatário, Jair Bolsonaro, será o 10º presidente de origem militar. Eleito com 57 milhões de votos, 10 milhões a mais que seu concorrente no 2º turno.

Tudo normal se não fosse o fato do novo presidente e parte de seu grupo político, terem histórico de declarações pouco afeitas aos valores republicanos. Dentre elas, a de eliminar, prender ou expulsar adversários políticos. De fechar a corte máxima do país e fazer apologia à tortura.  De atacar professores e imprensa.

Recentemente, Paulo Guedes – nome escalado para comandar a economia – disse que era preciso “dar uma  prensa” no Senado para que aprove ainda este ano a reforma da previdência, antes do novo governo assumir. A declaração é mais uma que repercutiu mal. Por essas e outras a gestão Bolsonaro será teste de vitalidade para a República Federativa do Brasil. 

E para nós a vossa lama

Bruno Lyra 

Na última segunda-feira (05) completaram três anos do maior desastre /crime ambiental da história do país e um dos mais severos da humanidade. O rompimento da barragem de rejeitos de minério da Samarco(Vale + BHP Billiton) em Mariana – MG matou 19 pessoas, destruiu casas e propriedades rurais.

E arruinou a principal fonte de água do ES, o rio Doce. Lama que desceu e continua descendo a cada grande cheia, estragou o rico estuário do rio em Regência e, uma vez no mar, se espalhou chegando a Cabo Frio, no Rio de Janeiro e Abrolhos, Bahia.  

Os impactos econômicos e sociais também foram gigantescos. A paralisação da Samarco, que no ES tem em Anchieta usina de pelotização e porto para exportação de minério, foi duro golpe para a economia capixaba. Baque sentido até na Serra, onde fornecedoras e prestadoras de serviço mantinham contratos anuais com a Samarco em torno de R$ 300 milhões/ano que geravam cerca de 350 empregos.

Sem contar os pescadores do rio Doce, que deixaram a atividade. E o impacto aos pescadores de todo o litoral capixaba, que tinham na foz do referido rio, em Regência, um dos principais pesqueiros. O que dizer então dos moradores das cidades abastecidas pelo Doce e dos produtores rurais que dependem do rio para irrigação? Os problemas também afetaram a lagoa Juparanã, a 2ª maior do país, entre Linhares e Sooretama.   

Tudo isso sem que houvesse punição aos diretores e operadores da Samarco. Nem mesmo as multas ambientais foram pagas pela empresa. Suas donas Vale e BHP pouco fazem, como se nada tivessem a ver com o desastre. As indenizações pagas e obras de reparações tocadas até agora pela Fundação Renova, entidade da Samarco criada para este fim, são desproporcionais ao tamanho do estrago.  

Se com as regras ambientais que o país tem atualmente esse cenário de impunidade e descaso impressiona, o que esperar do futuro? O grupo político vitorioso nas eleições presidenciais já sinaliza mais ‘flexibilização’ das leis e governança ambientais. Fala-se até em fechamento do Ministério do Meio Ambiente. É bom lembrar que nas cabeceiras do rio Doce, em Minas Gerais, há várias outras barragens de rejeitos da mineração.        

Eldorado eleitoral capixaba

Yuri Scardini

Nem bem acabou a eleição desse ano e o meio político já mira em 2020. Estão fervendo os ânimos na Serra, cidade governada por Audifax  Barcelos (Rede) e Sérgio Vidigal (PDT) de 1997 pra frente. Isso porque há uma chance expressiva de nenhum dos dois estarem na disputa.

O prefeito Audifax não tem a opção de reeleição, já Vidigal teve suas contas rejeitas pelo Tribunal de Contas, referente a 2012, quando foi prefeito da Serra. Fato que pode torná-lo inelegível. Vidigal ainda vai recorrer, mas se o Tribunal não acatar o recurso, quem deverá decidir o futuro político de Vidigal são os vereadores. O ex-prefeito vai precisar de 16 votos. Uma tarefa das mais difíceis.

Caso ocorra, indubitavelmente a Serra se tornará a cidade mais sedutora em 2020, uma vez que a cadeira de prefeito é uma das posições mais privilegiadas politicamente no Estado.

Mesmo não estando diretamente na disputa, tanto Audifax quando Vidigal participarão do processo. A partir de 2019 o prefeito deve começar a trabalhar sua linha de sucessão, para manter seu grupo político no município e dar sustentação para Audifax disputar o Governo do ES em 2022. Já Vidigal como cabo eleitoral também pode desequilibrar. 

Não está claro quem será o escolhido de Audifax, mas o prefeito tem dedo bom para isso, é só ver o fenômeno Fabiano Contarato (Rede), eleito senador com mais de 1 milhão de votos, quando só Audifax acreditou ser possível em meados do ano passado. Além disso, o prefeito vem com um extenso planejamento de obras fruto de operação de crédito, que pode ser uma boa vantagem na hora de cair para a rua e pedir votos para o sucessor.

O PSL de Bolsonaro, figurado por Manato no ES, também está de olho grande na cidade. Mas este plano está condicionado a resultados favoráveis do Governo de Bolsonaro, coisa que ainda é uma incógnita.

Além disso, resta saber qual o tamanho dos deputados Bruno Lamas (PSB), Vandinho Leite (PSDB) e Alexandre Xambinho (Rede) em 2020, dois postulantes ao cargo que vão precisar ganhar musculatura para chegar com força na disputa, uma vez que os resultados eleitorais desse ano deixaram a desejar. Não se descarta também a possibilidade de surgir alguém através desse fenômeno das redes sociais já que o campo pode estar aberto.

A Serra órfã de Vidigal e Audifax na urna em 2020 será fato não visto há 23 anos. Tudo pode acontecer.

Bolsonaro e o Espírito Santo

Yuri Scardini 

O que esperar do Governo do presidente eleito Jair Bolsonaro para o ES? Esta é uma pergunta que não pode ser respondida no momento e estará condicionado a diversos contextos, entre eles um resultado econômico favorável.

Por algumas razões, entre elas menor expressão política e de representação, o ES é um estado que vem nos últimos anos sofrendo falta de investimentos e perdas econômicas acarretadas por políticas dos Governos Federais.

Só para citar algumas, a Lei Kandir aprovada em 1996 que acarretou perdas de arrecadação para o ES na ordem de R$ 30 bilhões nos últimos 20 anos, e nunca houve uma compensação por parte do Governo Federal.

Nesta conta também dá para incluir o fim do Fundap em 2013, sem nenhuma política de compensação da União. O que acarretou uma perda estimada de 50 mil postos de trabalho e uma queda bilionária de 7% do PIB do Estado. E em 2016 a Operação Lava Jato apontou que o fim do Fundap teria sido comprado pela Odebrecht para favorecer a empresa.

Nessa lista, incluí as BR-101 e 262 que seguem sem duplicação; a ferrovia da Vale que iria ligar todo o sul do Estado, e agora o Governo que levar o investimento para o Centro Oeste; o aeroporto que demorou 15 anos para ficar pronto; e um contorno do Mestre Álvaro que patina; entre outros.

Outra preocupação é com os discursos anti-China de Bolsonaro. O país asiático é o terceiro maior destino de exportações capixabas. Uma pesquisa do Ministério do Comercio Exterior identificou que o ES exportou um total de R$ 8 bilhões em 2017, sendo R$ 2,7 bi para o EUA e R$ 400 milhões para a China. Acontece que o Estado enxerga a China como um parceiro promissor, só em 2017 foram 10 missões empresariais para a China. Nos últimos três anos a exportações para o EUA vêm caindo e a China vem crescendo.

Todas essas são expectativas de como Bolsonaro vai olhar para o ES. Mas entre os sinais positivos está a proximidade de dois capixabas com Bolsonaro. O que pode acarretar mais atenção do presidente com o Estado. Trata-se de Magno Malta (PR) e Carlos Manato (PSL).

Talvez o ES nunca tivesse lideranças políticas capixabas tão próximas do ciclo de confiança de um presidente, e como a política brasileira é personalista e de grupos, esse fato pode ser uma boa via para o Estado. 

Prova de força da democracia

Bruno Lyra 

A vitória do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro (PSL) na eleição para presidente da República põe à prova a jovem democracia brasileira, restabelecida há 35 anos após duas décadas da ditadura militar de 1964 a 1984. E não é só pelo fato da chapa do presidente eleito ser ‘puro sangue’ – seu vice é o general do Exército Hamilton Mourão.

Mas pelas declarações de Bolsonaro e aliados ao longo da campanha e antes do início do período eleitoral. Durante sua longa carreira de deputado federal, o presidente eleito proferiu frases polêmicas contra negros, homossexuais e mulheres. A mais famosa delas, ao discutir com a deputada petista Maria do Rosário, “Não te estupro porque você não merece”, rendeu a Bolsonaro condenação na Justiça. Elogiou várias vezes a tortura, o assassinato de opositores do regime militar, defendeu a “morte de corruptos”, incluindo do então presidente Fernando Henrique.

Já na campanha ao Planalto, Bolsonaro falou em metralhar adversários. Em forçar o exílio ou prender opositores. Meses antes do início do período eleitoral, seu filho Eduardo (eleito deputado federal por SP) ameaçou fechar o Supremo Tribunal Federal usando um cabo e um soldado do Exército. Republicado dias antes do pleito no 1º turno, o vídeo com a declaração gerou indignação entre ministros do STF. Por mais de uma vez, Bolsonaro e aliados lançaram dúvidas sobre a lisura da votação nas urnas, dizendo que se perdessem a eleição não aceitariam o resultado alegando fraude.

Uma vez eleito, Bolsonaro moderou seu discurso. Prometeu respeitar a Constituição, o pluripartidarismo e a liberdade de imprensa, embora continuasse mirando duras críticas a pelo menos parte desta última. Mas o fato de ter corroborado a estranha campanha para denunciar professores  com ‘viés ideológico’ em aulas só ajuda a lançar mais incertezas sobre o que será o governo do capitão Jair Messias.  

Que com parte das forças armadas e polícias ao seu lado, se submeterá à Constituição? Aceitará a independência do Ministério Público, Polícia Federal, dos outros órgãos de controle, do próprio judiciário, se os malfeitos a serem investigados e julgados estiverem no âmago do governo? Receberá pacificamente críticas e o jogo da oposição no congresso e nas ruas? O Brasil resolveu pagar para ver.  

Ambiente e pessoas em risco

Se não houver uma virada de última hora, Jair Bolsonaro (PSL) deve ser eleito o novo presidente da república no domingo (28).  As dúvidas que os críticos da candidatura do militar da reserva possuem sobre  a manutenção da democracia ou, pelo menos, sobre a qualidade do regime democrático a partir de 2019, também se estendem ao meio ambiente.

Tema que está muito mais perto das pessoas do que muitos imaginam: influenciam diretamente a qualidade da comida que se ingere, do ar que se respira, da água que se bebe. E também do nível de ruído e calor a que se está exposto no dia a dia. Enfim, coisas que estão intimamente ligadas à saúde e a economia. Quem fica doente sempre produz menos, gasta mais com medicação. Todos perdem independente da posição social, opção política, ideológica, sexual, religiosa, futebolística, entre outras.

Bolsonaro assusta ao criticar reservas ambientais, defender o fim da demarcação de terras indígenas, desprezar a ONU e acordo contra mudanças climáticas, dizer que irá fundir o Ministério do Meio Ambiente com a Agricultura, falar que vai cercear o ativismo ambiental e praticamente não tratar do tema em seu programa de governo protocolado no TSE. E o alarme vem de todos os cantos do planeta.

Por uma simples razão. O Brasil é campeão mundial de biodiversidade, detém grande parte da Amazônia, a maior floresta tropical ainda de pé na Terra, é berço das duas maiores bacias hidrográficas mundiais. Sem contar que é um dos principais produtores de alimentos do planeta, portanto há interesse mundial em saber como ficará a qualidade dessa comida.

Refletir a realidade da Serra ajuda a entender o risco. Mesmo com a adoção de leis ambientais mais protetivas, não se conseguiu evitar: que sangue humano fosse parar em rio que abastece a cidade; que o município se livrasse de centenas de lixões a céu aberto; que a economia e a natureza do ES fossem devastadas pela lama da Samarco (Vale + BHP); que o caro tratamento de esgoto pago pela população redundasse em córregos e lagoas podres; que o Mestre Álvaro não fosse plenamente preservado e ainda sofresse redução de sua reserva.

Imagine então o que pode acontecer com o afrouxamento da regra e governança sobre o tema? Que Bolsonaro reveja tais posições caso eleito. Do contrário, o projeto civilizatório estará em risco.

 

Casagrande e dilapidação do patrimônio

Enquanto o Brasil concentra para acompanhar e militar online e off-line na eleição presidencial, o meio político capixaba divide o olhar, com atenção a esse contexto e a transição entre o governador eleito Renato Casagrande (PSB) e o atual, Paulo Hartung (MDB). Mesmo com equipes de transição em campo, muitos conflitos e discordâncias têm sido registrados.

Entre eles estão às movimentações financeiras do Governo, especialmente após o resultado do 1º turno da eleição. A equipe de Casagrande acusa o governador de gastança desenfreada nessa reta final de mandato. Segundo eles, movimentações anormais têm sido registradas, o que poderia colocar em xeque a liquidez financeira do próximo Governo.

O principal foco de debate são os convênios assinados com as Prefeituras para a realização de obras. Teriam sidos adicionados ao Orçamento cerca de R$ 320 milhões para este fim, quando a previsão inicial era de R$ 48 milhões. Somente na semana passada o governador assinou 13 convênios com 6 prefeituras, que totalizam mais de RS 30 milhões a serem pagos em cota única, a Serra foi uma das cidades contempladas, com R$ 13 milhões.

Segundo levantamento da equipe de Casagrande, desses R$ 320 milhões, teria sido empenhado R$ 125 milhões, dos quais foram quitados apenas R$ 23 milhões. A equipe de Casagrande teme que essa política de Hartung engesse a máquina pública, no que Casagrande chama de “dilapidação do patrimônio” estadual.

Já porta-vozes de Hartung, afirmam que as contas públicas estão equilibradas e devem entregar o governo estadual mais saudável fiscalmente falando do Brasil, com R$ 300 milhões em caixa. Governo esse que recentemente foi exaltado pela jornalista Miriam Leitão da Rede Globo.

Outro desafio de Casagrande é o orçamento de 2019 que já está na Assembleia Legislativa. Numa jogada junto ao presidente Erick Musso (PRP), Casagrande conseguiu adiar a votação da peça orçamentária, e deverá sugerir mudanças. Entre os pontos que suscita atenção, segundo aliados do governador eleito, está a receita perdida por meio de exonerações fiscais, onde há a previsão de conceder benefícios fiscais a setores da economia capixaba, que podem redundar em perdas de arrecadação.

E isso tudo porque Casagrande nem sequer assumiu o mandato. O Brasil deve passar por tempos a difíceis pela frente, independente de quem for eleito presidente. O governador eleito ainda terá que ter muito fôlego.

 

Debate é o oxigênio da democracia

Bruno Lyra

Esta é a eleição mais polarizada desde a redemocratização do país, em 1985. E graças à capilaridade das redes sociais, é também a que mais tem mexido no cotidiano das pessoas. Tem gerado conflito entre familiares. Entre amigos que poucas semanas atrás riam juntos. O que dirá entre desconhecidos.

O debate foi sequestrado. Deu lugar à virulência do discurso cego detratando o oponente. Confrontos que ocorrem na internet e já ganharam as ruas em forma de agressões e até assassinato. Basta ver os crimes cometidos por conta do ódio político, amplamente noticiados por veículos tradicionais de imprensa.   

As coordenações das duas campanhas, até por marketing eleitoral, apostam na narrativa do medo. A campanha de Jair Bolsonaro (PSL), líder nas pesquisas e franco favorito, ataca o adversário Fernando Haddad (PT) chamando o de corrupto, de novo poste do Lula, de ser condescendente com a criminalidade nas ruas, de querer implantar o socialismo no Brasil.

A campanha do petista taxa Bolsonaro de fascista por falas contra minorias e contra a proteção ambiental, de flertar com a ditadura por ser uma chapa de militares – Bolsonaro é capitão reformado do Exército, e seu vice, é o General Mourão.

Em 13 anos de governo, o PT não implantou o socialismo no Brasil. E nem há qualquer proposta nessa direção no programa de Haddad, embora a ênfase continue sendo a transferência de renda para a população mais pobre. A crítica de ser o novo poste de Lula, procede. Quanto à corrupção, ela atinge em cheio o PT. Mas se estende a praticamente todos os partidos do país. E transpassa para o Judiciário, outras instituições da República, entra na iniciativa privada e na vida cotidiana.  

Chega inclusive aos políticos e partidos que caminham (ou já caminharam) com Bolsonaro, que ainda tem ao seu lado controversos líderes de impérios religiosos que fizeram fortuna e cada vez mais ampliam seu poder – inclusive midiático – no Brasil.

Já as preocupações sobre a respeito do fascismo e tendência à autocracia em Bolsonaro se justificam pelas falas e tom agressivo do candidato e seus apoiadores. Que atacam inclusive o sistema eleitoral. E se agravam pela negativa de Bolsonaro em ir a debates ao mesmo tempo em que dá entrevistas e faz agendas externas de campanha. Tudo isso em meio à enxurrada de notícias falsas na internet que, em boa parte, favorecem o capitão.

Será que essa instabilidade que sacode o Brasil perdura e até piora após 28 de outubro? Ou será que teremos um final feliz?

Mais recursos para a Serra

Hélio Maldonado

No domingo recente concluímos mais um ciclo de processo eleitoral para preenchimento das trinta vagas de Deputado Estadual da Assembleia Legislativa do nosso Estado. Das urnas colhe-se o resultado da vitória dos candidatos Vandinho Leite (PSDB), Bruno Lamas (PSB) e Xambinho (Rede), todos com seu “reduto político” centralizado na Serra. Cabe destacar que esse foi o melhor desempenho eleitoral dos candidatos serranos na última década. E essa é uma conquista sob vários aspectos.

Dos aproximadamente dois milhões e oitocentos mil eleitores do Espírito Santo, onze por cento desse total se concentra no Município de Serra. E então, linearmente, a vitória dos três Deputados da Cidade corresponde a dez por cento das vagas em disputa. Tais dados evidenciam a sobre-representatividade de Serra na Assembleia Legislativa.

Esse cenário de sobre-representatividade traz consigo uma sinalização de melhoria dos problemas econômicos, sociais e políticos do Município, que infelizmente o credenciam a figurar como a única Cidade capixaba na lista dos trinta locais mais violentos do país.

Isso porque, é consabido que no pacto federativo de repartição do produto da arrecadação tributária, a riqueza da nação se destina de maneira decrescente à União, Estados e Municípios. E os Deputados Estaduais, além de legislarem, têm a possibilidade de anualmente influir na execução do orçamento do Estado quando da votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias, por meio de “Emenda” de sua autoria. Assim sendo, a participação de um número maior de Deputados barristas nessa deliberação certamente trará consigo uma maior destinação de recursos para Serra para aplicação na educação, saúde, moradia, emprego, renda, segurança e lazer dos seus munícipes. Então, além da aplicação da receita do Município de Serra nessas áreas, a Cidade contará com significativa afetação do orçamento do Estado.

Oxalá que esse cenário de sobre-representatividade possa içar a Cidade à posição mais privilegiada (atualmente ocupa o 7ª lugar) no ranking de índice de desenvolvimento humano dos Municípios capixabas, em contrapartida de Serra ser o Município mais populoso do Estado.

Fla x Flu na política brasileira

Por Bruno Lyra

A percepção mais geral da eleição aponta para confronto de extremos. De um lado, o totalitarismo de direita, cujo formato é o nazifascismo da Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler. De outro a esquerda com ditadura do proletariado, com exemplos no socialismo de governos como o da extinta União Soviética, Cuba, Coréia do Norte. 

Esse é o dualismo clássico que a ideologia do confronto usa, jogando com os extremos. Óbvio que a realidade brasileira é muito mais complexa. Explicar a ascensão do Bolsonaro como retorno puro do nazifascismo é desconsiderar muita coisa. Assim como associar Haddad, o indicado do lulopetismo, ao totalitarismo de esquerda, soa falso. 

De fato, parte do discurso de Bolsonaro e de parte de seus apoiadores remete à ideologia de Mussolini e Hitler. Mas há milhões de fãs do capitão reformado que votam nele pelo desejo legítimo de ter mais segurança, por acreditarem na caça aos corruptos e ao excesso de burocracia. Também são adeptos do conservadorismo religioso e querem o retorno de costumes que desbotaram nas últimas décadas.

Mas desejam fazer isto pelo voto, usando a ferramenta da democracia.  Nem que seja preciso abrir mão de algumas liberdades individuais. Bolsonaro diz que joga no campo democrático. Mas há sinais dados por ele e seu vice, o General Mourão, de que o rompimento institucional é uma possibilidade.

Do outro lado, Haddad traz o que ficou do grupo liderado por Lula. Apesar do pendor autoritário à esquerda defendido historicamente por militantes neste campo, na prática o lulopetismo não levou o país ao socialismo. Tão pouco ao autoritarismo. 

Combalido pelo fracasso do governo Dilma e pela condenação e prisão por corrupção, Lula e seus aliados são a vitrine predileta para a grande onda ‘moralizadora’ à direita. Não é caso isolado, tem acontecido em outros países.

E mais do que defender o legado petista, acabou caindo no colo de Haddad o anseio da parte dos brasileiros que quer garantir a liberdade. E dentro de um estado com rede protetiva para os mais pobres. É gente que também sofre com a violência urbana. Mas não crê na forma reducionista de combate ao problema, entendendo que também é preciso inclusão, cultura, trabalho e renda. Assim vai o Fla x Flu da política nacional.

Nos bastidores 2020 começou

Por Yuri Scardini

Após uma eleição dura, os políticos da Serra tiraram a semana para refletir sobre a conjuntura eleitoral e os motivos que os levaram, em quase sua totalidade, a ter menos votos do que a expectativa. Na prática, deve haver uma mudança de postura e um ajuste de discursos e práticas. Isso tudo, obviamente visando à eleição de 2020, isso pelo menos ainda não mudou.

No tocante, deve haver um rearranjo de forças. O prefeito Audifax Barcelos (Rede) foi um dos poucos que pode dizer que se saiu vitorioso. Apadrinhou o campeão de votos no ES, senador eleito Fabiano Contarato (Rede) e elegeu o pupilo Alexandre Xambinho (Rede) para deputado estadual, apesar de fazer uma votação considerada baixa por muitos.

Pela sua relação orgânica com o prefeito, inegavelmente Xambinho desponta como um nome do grupo de Audifax para sua sucessão, mesmo que publicamente opte por um discurso mais equilibrado. Ainda assim, não é de se duvidar que o grupo de Audifax ‘apresente’ um nome surpresa.
Outro vitorioso das urnas foi Bruno Lamas (PSB). Que já orbita há tempo o posto de prefeito da Serra e deve contar com o suporte do futuro Governador Renato Casagrande (PSB). E ainda nutre chances de ser ‘o cara’ de Audifax em 2020, o que é legítimo.

Outra força em emersão é Vandinho Leite (PSDB). Astuto, Vandinho sabe fazer do limão uma limonada. E já provou sua capacidade de articulação. O tucano é uma força independente e desgarrado. Mas aguarda do ex-prefeito e atual deputado federal reeleito, Sérgio Vidigal (PDT), uma posição. Uma vez que Vidigal cometeu um equívoco político em trocá-lo pela candidatura da esposa, Sueli Vidigal (PDT).

Vidigal, aliás, foi o que mais saiu enfraquecido na Serra. Perdeu confiança dos aliados ao lançar Sueli, viu a derrota nas urnas da esposa, e amargou mais de 80 mil votos a menos do que em 2014. Estaria na hora de Vidigal recuar?

De qualquer forma está claro que os políticos da Serra precisam se reciclar, ou perderão mais espaço para fenômenos eleitorais ainda desconhecidos de uma conjuntura política pra lá de imprevisível e esquizofrênica. A forma tradicional de fazer política parece estar em xeque, e quem ficar na vanguarda da compreensão dessa nova realidade, estará mais perto da cadeira de prefeito da Serra.

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