Serra, 17 de agosto de 2018

Portal Tempo Novo - O Portal da Serra, ES

Mestre Álvaro

por Eci Scardini

Esgoto cada vez mais sujo

Yuri Scardini

A Serra Ambiental, que recentemente trocou de nome para Ambiental Serra, ainda sucinta muitos questionamentos e acumula um histórico pra lá de controverso. Desde 2015 a empresa é a responsável pelo serviço de coleta, tratamento e descarte do esgoto através de uma parceria público-privada com a Cesan.

Essa semana o Tempo Novo traz uma matéria especial sobre a mudança de postura do Comdemas com a Ambiental Serra. Mas para, além disso, o que é possível falar sobre o serviço prestado pela empresa?

A se começar pelo óbvio: rios, lagoas e córrego ainda são uma confraria da poluição. Só para se ter ideia, neste intervalo de três anos a lagoa Juara, 3ª maior do ES, já sofreu com tamanha degradação que gerou duas grandes mortandades de peixes e o fim da produção de tilápia em tanques redes. Hoje, o tradicional Festival da Tilápia é somente uma boa lembrança. A Juara é só um exemplo, mas são múltiplos os casos.

Outra questão é o custo desse serviço. Pagar 80% de taxa referente à conta de água é dispendioso. Quem definiu isso? Essa conta é justa? De que forma a população participou desse debate? As contas da Ambiental Serra são uma caixa preta. Ninguém sabe dizer o quanto de dinheiro público essa empresa já recebeu, nem mesmo estimar qual é a taxa de investimento versus faturamento. Até porque, não houve nenhum investimento significativo, além das obras de ligação de residências na rede coletora de esgoto, o que obviamente significa mais lucro para a empresa.

As estações de tratamento de esgoto continuam defasadas, com tecnologia antiga, datadas da década de 80, o único investimento anunciado foi a limpeza do lodo no fundo das estações. Havia a previsão de construir novas estações, mais eficientes e modernas, mas até agora nada. Adianta coletar esgoto e tratá-lo em estações ineficientes, retornando-o com água ainda contaminada na rede pluvial?

Na prática, o que há é uma profunda falta de transparência, desrespeito com a população e com o meio ambiente, e o que fica não são respostas, são dúvidas e desconfianças. Só para lembrar, todo esse histórico negativo é fruto de menos de 3 anos de atuação na Serra, ainda faltam 27 anos de contrato.   

Guerras rumo à Assembleia

Yuri Scardini 

Apertos e desapertos nas chances eleitorais de conhecidos candidatos da Serra a deputado estadual. Após as tratativas das coligações, há certa apreensão, já que as condições de eleição foram um pouco dificultadas para grande parte das lideranças locais.

A se começar pelo PSB do deputado Bruno Lamas. O partido coligou com o PSDC que tem Euclério Sampaio, que em 2014 fez 23 mil votos. Estima-se que Euclério cresça, uma vez que politicamente se juntou com o deputado Josias da Vitória (candidato a federal), que deve carregar votos no interior para Euclério.

Paralelamente a isso, o PSB conta com Sérgio Mageski que desceu da candidatura de senador e vai disputar a reeleição de estadual, o deputado Freitas, forte no norte do ES, e alguns candidatos que podem surpreender, como Antônio da Emater, ex-prefeito de Pinheiros entre outros. Estima-se que essa coligação faça três, então será briga de foice.

Outra apertada é a ex-deputada Sueli Vidigal. Ela ficou na chamada ‘chapa da morte’. Com PDT, DEM, PPL e PSD, a chapa está pesada e conta com nomes com Marcelo Santos, Enivaldo dos Anjos, Ismael Almeida, Theodorico Ferraço e a própria Sueli. Estima-se que a chapa faça 3 nomes, e é possível que candidatos com 25 mil votos não se elejam nesse contexto.

Difícil também ficou para a Rede. No chapão com Podemos, Patriota, PMN e PRTB, a Rede terá que se superar, uma vez que a chapa pode chegar a 3 vagas, mas com Janete de Sá, Rafael Favatoo e Marcos Bruno na disputa, as lideranças da Serra podem ter dificuldades de eleição, e vão ter que superar a barreira dos 20 mil votos para ter chance.

Situação um pouco mais confortável está Jamir Malini (PP). O partido coligou com o Pros e há a expectativa de fazer duas vagas. Além de Malini, nessa chapa está à deputada Raquel Lessa, e olha-se com certa atenção para Renzo Vasconcelos. Herdeiro da família dona da UNESC e muito forte em Colatina. A briga deve ficar nesses três nomes para duas vagas.

Já o PSDB, de Vandinho Leite, está bem acomodado com o PSC, do vereador da Serra, Aílton Rodrigues. Essa pode fazer três nomes, e Vandinho é cotado para liderar os votos, e até mesmo Aílton tem boas chances de eleição.

Acredita-se que será alta a renovação política na Assembleia. Candidatos fora dos ‘favoritos’ podem surpreender e o eleitor está instável e deve haver grande número de abstenções.

Julho de 9 assassinatos

Por Bruno Lyra

Julho último já é considerado um mês histórico para a Serra, cidade que chegou a ser mais violenta do mundo anos atrás. Pela primeira vez desde 1996, a cidade teve menos de 10 assassinatos num mês. No caso deste julho, nove, precisamente. Cada vida tem seu valor, por isso o dado não é algo que se deva comemorar, a não ser que a chegue a zero.  Mas é positivo e leva a reflexões.

A mais óbvia é: O que explica tal queda? A Serra, assim como o Estado, vive as consequências sociais das crises política e econômica que atingem o país. Desemprego alto, SUS pior, rede de seguridade e assistência social menores. E até que se tenha notícia, não houve nenhuma grande melhora no aparelho estatal da segurança.

Pelo contrário. A PM tem dificuldades (vide a greve de fevereiro de 2017), a polícia investigativa (Civil) segue com baixo índice de resolução de homicídios por conta da histórica defasagem de pessoal e infraestrutura. O sistema carcerário continua muito mais como ‘pós- graduação’ do crime do que como espaço de punição e preparação para reinserção de infratores ao convívio social.

Outro fator relevante é que o recuo nos assassinatos acontece num tempo em que não há nenhum grande vetor de desenvolvimento ocorrendo na cidade e no ES. Na verdade ocorre o oposto. O setor mínero siderúrgico, âncora do crescimento populacional e vertiginoso da Serra a partir da década de 1970 (e que também foram acompanhados pelo crescimento da violência) dá sinais de declínio. Vide os casos Samarco, Companhia Siderúrgica de Ubu (CSU) e ferrovia litorânea sul.

Arcelor Mittal e Vale anunciaram investimentos ambientais para tentar amenizar multas e processos que recaem sobre ambas por poluição. Serão 2,5 mil vagas temporárias de trabalho. Será interessante ver como ficarão os homicídios na Serra durante as obras.

Outro fato curioso sobre a estatística de assassinatos em julho: o dado foi divulgado pelo Governo no dia 02 de agosto, quase de bate pronto, o que é incomum. Há anos Tempo Novo cobre números mensais desses crimes e nunca a divulgação foi tão rápida. O normal é sair em 15, 20 dias ou até mais. É ano eleitoral. Tomara que seja a realidade. E que a Serra deixe de ser uma das capitais mundiais da matança. 

Mil dias: colapso e calotes

Bruno Lyra

No próximo dia 05 de agosto completam mil dias do rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana, Minas Gerais. Foram 19 mortes, Bento Rodrigues destruída, 324 hectares de mata Atlântica devastados, contaminação por metais pesados e assoreamento do rio Doce e poluição do oceano Atlântico de Abrolhos (Bahia) a Arraial do Cabo (Rio de Janeiro).

As ações de reparação até agora são pífias. E a impunidade aos responsáveis um exemplo de injustiça. Vide o calote da Samarco e suas controladoras Vale e BHP às multas ambientais. 

O impacto econômico vai muito além dos pescadores, agricultores e moradores das cidades que dependem do rio. Chega à saúde de quem continua bebendo água do rio ou consumindo alimentos do rio e do enorme trecho marítimo afetado.

E vai mais longe. Há dano gigantesco pouco mensurado na economia mineira e capixaba. Pior para o Espírito Santo que, diferente do seu vizinho, não tem economia diversificada. É mais dependente do arranjo mínero-siderúrgico. Por isso a paralisação da siderurgia e da exportação de pelotas de minério de ferro na usina e porto da Samarco em Anchieta é tão desastrosa.

Não foi à toa que o PIB capixaba caiu 12,2 % em 2016, contra um recuo nacional de 3,6 %, mesmo com o país em crise brava.  Fornecedores de bens e serviços da Samarco ficaram a ver navios. Até na Serra houve perda de1 mil empregos e a cessão de R$ 300 milhões em negócios/ano. Em alguns municípios do sul capixaba o cenário foi pior.

Um efeito cascata, que chegou a Fíbria, que depende da água do Doce para fazer celulose. O caso da barragem da Samarco e o vazamento do mineroduto da Anglo American em março de 2018, também em Minas, podem ser sinais de desinvestimento do arranjo minero siderúrgico na região Sudeste.

Cabe ao ES se preparar para reinventar sua economia. Toda a infraestrutura portuária e ferroviária hoje usada pela siderurgia é o maior trunfo capixaba. Por sua posição geográfica, o estado tem que amplificar o corredor de exportação do agronegócio do Brasil central (Minas, Goiás e Mato Grosso) e importação para o enorme mercado consumidor dessa região. 

Rose (Hartung) de Freitas

Yuri Scardini

Semana importante para partidos e lideranças políticas que vivem neste caótico cenário político capixaba (e nacional). Muita coisa já foi definida, mas algumas dúvidas que podem alterar o formato atual seguem em aberto e as amarrações que vão definir os espaços eleitorais continuam em negociações.

O principal deles é a não-candidatura do governador Paulo Hartung (MDB). Após anunciar e reafirmar que não será candidato, na noite da última quarta-feira (01) voltou a circular nos bastidores políticos a possibilidade de Hartung disputar a reeleição. Ele segue elegível legalmente, já que não descumpriu nenhuma regra que poderia inviabilizá-lo na disputa.

Essa dúvida deve seguir até os últimos minutos, até lá, o que há de real é um crescimento do palanque da Senadora Rose de Freitas (Podemos). Antes isolada, Rose viu sua candidatura dar um salto quase que a base de anabolizantes através do espólio de PH e já se soma entre 10-15 partidos aliados. E caso o panorama não mude, deve ser ela a rivalizar com o ex-governador Renato Casagrande (PSB).

Difícil é mensurar até que ponto esse arranjo partidário que embarcou no quintal de Rose de última hora, pode se transformar naquilo que interessa: votos. Primeiro que esse ‘upgrade’ vem com o DNA de Hartung, desgastado com um governo questionado e marcado, entre outros desgastes, pela ‘greve’ da polícia militar. Além do mais, resultados de pesquisas eleitorais recentes, mostram que PH e Rose lideram os índices de rejeição, se separados são tão rejeitados, imagine juntos.

Rose é política profissional com mais de 4 décadas de caminhada, portanto não se pode vender como novo. Outra questão é que Rose é municipalista. Trabalha com prefeitos e lideranças locais. Acontece que a crise é para todos. As cidades estão sem dinheiro e muitos prefeitos desgastados com a população. Os recursos que Rose traz de Brasília são importantes, mas passam despercebidos para a massa de eleitores que não sabe qual a procedência do dinheiro que provém as obras públicas.

Outro fator é a quase nulidade de Rose nas redes sociais. Diferente do rival Casagrande. Até quando Rose vai olhar para dentro da política e dos partidos em detrimento ao eleitor. Quando Rose vai começar a se comunicar com quem mais importa e ir para as ruas gastar sola de sapatos? Quais são as propostas da senadora e qual seu discurso eleitoral? A poucos dias das urnas, parece que as contas eleitorais de Rose se resumem a simplicidade binária de quem tem mais partidos e prefeitos.

Acomodados na casa grande

Yuri Scardini

Semana agitada na política capixaba. O governador Paulo Hartung (MDB) protagonizou uma verdadeira volta dos que não foram, e deixou o cenário capixaba atônito. Passada a cambulhada, o que fica é (novamente) um grande favoritismo ao ex-governador Renato Casagrande (PSB).

Este arranjo pró-Casagrande parece ter beneficiado muitas lideranças políticas da Serra. Talvez o maior apaniguado tenha sido Sérgio Vidigal (PDT), que engoliu os sapos passados com Casagrande e sem titubear, se alinhou ao PSB. E ao mesmo tempo, manteve suas raízes bem semeadas com Hartung e seu grupo político, já que em tese, Vidigal ‘foi obrigado’ a compor com Casagrande sob discurso de ‘determinações partidárias’. E agora é o cotado para ser interlocutor entre Paulo e Renato durante essa transição política que se avizinha.

Já para a Rede do prefeito Audifax Barcelos, também ficou bom. Não é prioridade para o partido discutir questões ligadas à eleição de governador. A Rede precisa se viabilizar enquanto partido e eleger deputados federais. Sob essa perspectiva, a Rede que vinha isolada no palanque de Rose de Freitas (Podemos), ganhou um leque de partidos órfãos do grupo de Hartung para coligar. Além disso, a princípio, Rose garante uma vaga de senado para a candidatura do delegado redista, Fabiano Contarato, porta da qual Audifax pretende sustentar o palanque de Marina Silva no ES.

Outro beneficiado é o deputado Bruno Lamas (PSB), que está com um sorriso de canto a canto da boca. Situação diferente de Vandinho Leite (PSDB) que teve que engolir um alinhamento com o PSB. Mas que ao mesmo tempo, Casagrande não se pode dar o luxo de desmerecê-lo, já que é cotado para ser um dos candidatos a estadual mais bem votado no ES, e uma liderança muito expressiva do PSDB.

Bem também ficou o deputado Jamir Malini (PP), que permanece como vice-líder do governo e alguém de confiança de Hartung, mas seu partido se alinhou à Casagrande. Malini é reconhecido pela sua natureza conciliadora e dá mais uma prova da sua capacidade de se manter em pé sob a areia movediça. Já Givaldo Vieira com o PCdoB, orbita no palanque de Rose e Renato e pode coligar com a Rede.

​Os principais líderes políticos da Serra parecem ter se acomodado nos arranjos partidários e tem tudo para atingir seu objetivo em 2018. Mas por outro lado, seguem como figuras secundárias na política capixaba e continuam olhando apenas a Prefeitura da Serra, ao invés de levantar a cabeça.

Restinga entre erro e exagero

Bruno Lyra

O corte raso da restinga de Jacaraípe feito pela Prefeitura da Serra com autorização do Governo do Estado virou alvo de polêmica. Não era para menos. A restinga é considerada por lei federal como Área de Preservação Permanente (APP), ajuda a conter a erosão do mar, evita o deslocamento de dunas, impede o arraste da areia da praia em direção à orla, ruas e residências próximas, além de servir de habitat para fauna nativa, incluindo espécies ameaçadas de extinção.

Amplificou a controvérsia o fato da área devastada ter sido fruto de uma recuperação ambiental tocada por surfistas e entidades ambientalistas da região desde o início da década de 2000. Trabalho feito inclusive, sob orientação técnica da própria Prefeitura e, por diversas oportunidades, aplicado como compensação ambiental de obras da Cesan e até do aeroporto de Vitória. Iniciativas semelhantes também aconteceram em outras orlas do município.

O argumento para o corte, que foi considerado uma “poda” pela Prefeitura, procede: a insegurança. Com o crescimento da vegetação perdeu-se a visibilidade da areia, além das moitas altas terem formado esconderijos para pessoas mal intencionadas. Isso numa praia urbana não é bom negócio, ainda mais numa orla que até o início da década de 1990 era um dos principais destinos turísticos do ES, posto que perdeu por conta da violência. Problema que, é bom ressaltar, não tem a ver com a restinga, mas com o modelo de desenvolvimento implantado na Serra associado a outras mazelas históricas do país, como a desigualdade social e a impunidade.

Mas nesse contexto ter a vegetação muito alta não ajuda a recuperar a vocação turística. Por isto o manejo é necessário. Uma coisa é restinga dentro de parques e reservas, outra coisa é em praias urbanizadas, caso de Jacaraípe. Aí é preciso manejo.

No caso da ação feita pela prefeitura houve um exagero. Não precisava cortar tão rente. O ideal seria um projeto de jardinagem. E deveria ter sido feito com pleno diálogo com os ativistas locais, que tanto trabalharam pela recuperação e por isso, conhecem bem o ambiente. Além de reclamarem da falta de diálogo, esses ativistas denunciam que não houve remanejo dos animais silvestres que habitavam o local. Além do fato de terem sido cortadas muitas plantas nativas. Da maneira como foi feito, o corte escancara desqualificação da gestão ambiental.

Toque de recolher institucional

Por Bruno Lyra

Emblemático o fechamento das portas das quatro unidades do Conselho Tutelar na Serra por falta de segurança na semana passada. Fato que é mais um indicador da fragilidade do estado de direito frente ao alastramento da cultura de violência.  É literalmente um toque de recolher institucional.

Ainda que o atendimento permanecesse por telefone, conforme informou a coordenação do Conselho, não é a mesma coisa. As portas reabriram no início dessa semana, mas uma nova ameaça a um conselheiro voltou a deixar dúvidas quanto ao funcionamento normal da instituição, que foi estabelecida pelo Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) como uma das  ferramentas da política federal para proteger as pessoas que serão os futuros adultos do país.

A violência contra conselheiros não é exclusividade da Serra. Mas é particularmente dramática por estas bandas, haja vista que a cidade segue no topo do ranking da violência no ES. Estado que, por sua vez, registrou recentemente a maior taxa de homicídios contra crianças, adolescentes e jovens do Brasil. Em 2015, quase 30% das pessoas assassinadas no Espírito Santo eram pessoas de até 19 anos, segundo a Fundação Abrinq.

A precarização do funcionamento do Conselho Tutelar é especialmente preocupante neste cenário de aguda crise econômica, quando mais crianças e adolescentes ficam sujeitas a exploração, maus tratos e recrutamento para o crime. Isso num momento em que o recrudescimento de ideias e políticas conservadoras pode levar a uma redução da maioridade penal, que se por um lado é clamor para melhorara a segurança, por outro pode desproteger ainda mais os adolescentes. O debate é complexo e exige amadurecimento da sociedade.

Se o município não conseguir viabilizar o funcionamento dos Conselhos, deve pedir ajuda ao Estado, que é o responsável constitucional pela segurança pública. Será uma irresponsabilidade se o Estado não atender. Mas caso isso aconteça, o município precisa sacrificar sua receita para contratar segurança. O que não pode é o Conselho ficar de portas fechadas. 

 

Luiza Dias Barbosa, mulher e cidadã

“Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis”.

Por Eci Scardini

Quando o romancista, dramaturgo e poeta alemão, Bertolt Brecht, que viveu entre 1898 e 1956 escreveu o texto acima não imaginava que na América do Sul, no Brasil, no Espírito Santo e na Serra, uma mulher iria encarnar o estado de espírito que emana de cada palavra do seu texto. Essa mulher é Luiza Dias Barbosa, que morreu na última segunda-feira (16) e foi sepultada na terça (17).

Luiza não foi uma mulher efêmera nessa cidade eclética; foi uma mulher única. Educadora, professora, líder comunitária, ativista social, militante política; uma mulher que soube fazer da sua simplicidade, humildade e sabedoria a sua grande arma e com isso lutar o bom combate.

Desde a década de 1970, Luiza enfrentava os desafios de fazer política comunitária em uma cidade de feudos. Passou por José Maria Feu Rosa, João Baptista da Motta, Adalto Martinelli, Sérgio Vidigal e Audifax Barcelos. Sempre com a sua peculiar educação, voz mansa, habilidade com as palavras; mas firme no posicionamento e nas suas convicções de retidão e moral inabalável.

Teve presença e passagem marcante pelo movimento popular; militou por décadas no PSB e por último no PCdoB. As últimas duas décadas foram dedicadas ao bairro Jardim Limoeiro e a estimular jovens e adolescentes em estado de vulnerabilidade social á prática esportiva e a estudar, como forma de mudar uma trajetória predestinada ao fracasso.

Muitos jovens hoje, bem sucedidos ou bem encaminhados agradem à Luiza, que batia de porta em porta em busca de apoio para o time de futsal de Jardim Limoeiro que ganhou projeção estadual com títulos e vitórias memoráveis e através dos ensinamentos e da disciplina do esporte, portas como as da UCL e de dezenas de empresas se abriram para eles.

Esses mais de 40 anos de militância política, social, comunitária e de entrega ao próximo sempre foram pelo caminho da honestidade e da retidão.
Luiza fora internada na UPA de Carapina com quadro de infecção urinária e depois transferida para um hospital de São Mateus onde foi acometida de um quadro de pneumonia e não resistiu, vindo a óbito.

O nosso rei estava nú

Por Yuri Scardini

Após o anúncio do governador Paulo Hartung (MDB) de não disputar mais eleições, o mercado político capixaba ficou alvoroçado. Não é para menos, já que em tese, encerra-se um ciclo de quase duas décadas de hegemonia política de PH. As verdadeiras razões que levaram Hartung a tomar tal decisão é uma variável secundária nesse momento, já que há apenas 34 dias para o prazo de registro de candidatura, o grupo governista corre contra o relógio para conceber uma candidatura viável.

De cara o ex-governador Renato Casagrande (PSB) é favoritíssimo diante desse cenário. Mas esse, ainda desconfiado, tem evitado falar no assunto e espera o governador decantar. Casagrande terá também que ajustar seu discurso eleitoral, uma vez que ele perdeu o flanco do ‘anti-Hartung’.

Agora o trabalho do ex-governador é aumentar seu palanque, e não permitir que o grupo governista cresça. Entre os preferidos estão o PDT do deputado Sérgio Vidigal, o PP (2º maior partido do Brasil em nº de deputados), o PR de Magno Malta e há quem defenda o PT nesse bojo.

Já sobre o espólio de Hartung, o grupo governista deve decidir neste final de semana entre Amaro Neto (PRB), Ricardo Ferraço (PSDB) e Cesar Colnago (PSDB). Este grupo trabalha para escolha de um nome unânime com condições de ir para o 2º turno e joga com a expressividade de siglas como o PSDB, MDB, PSD e PRP visando o fundo partidário e o tempo de TV.

Isolada nesse arranjo partidário, está à senadora Rose de Freitas (Podemos), que nem mesmo o apoio da Rede está confirmado. Ela vem tentando juntar com os governistas, mas estes relutam já que tal união diminui as chances de ter 2º turno.

É necessário também inserir no cálculo a candidatura do PM Coronel Foresti pelo PSL. A expressividade eleitoral de Bolsonaro no ES (por agora com quase metade das intenções de voto) pode ocasionar num avanço do PSL local, podendo ser um fator razoavelmente expressivo na contagem para 2º turno.

Já na Serra, essa gangorra política subiu pra uns e desceu pra outros. Fato que o mais encurralado é o prefeito Audifax (Rede). Enquanto o palanque de Rose está esvaziando, Audifax não encontra abertura nos governistas e com Casagrande (ainda mais com Vidigal por lá). Mas não se pode subestimar a capacidade encontrar soluções de última hora do prefeito, ainda mais com uma Prefeitura da Serra em mãos.

O declínio mínero-siderúrgico

Por Bruno Lyra

O anúncio de que a Vale não irá fazer a ferrovia litorânea sul ligando a Grande Vitória ao município de Presidente Kennedy é mais um sinal do declínio do arranjo minero siderúrgico na região.

Se tal empreendimento fosse bom a Vale, suas parceiras investiriam nele independente da condicionante do Governo Federal de que a mineradora terá que fazer uma ferrovia entre Mato Grosso e Goiás para ter renovado a concessão da Vitória – Minas, linha férrea usada para escoar minério de ferro das serras mineiras para a planície capixaba, dentre outros usos secundários.

Outros sinais do declino estão postos. O estouro da barragem da Samarco (Vale + BHP) e o rompimento do mineroduto da Anglo American expõem a precarização da gestão. A incerteza do retorno do Samarco  fortalece tal tese.

Há mais variáveis indicadoras do declínio. A Vale é detentora de outra estrada de ferro no ES, a  Ferrovia Centro Atlântica (FCA), antiga Leopoldina. A via está abandonada, fazendo com que um dos clientes da Vale na logística, a Fíbria, voltasse a usar as perigosas e carretas bitrem para transportar eucalipto produzido nas regiões sul e serrana para a fábrica em Aracruz pelas BR´s 262 e 101.

Tudo ao mesmo tempo em que a Vale inaugura a maior mina de minério de ferro do mundo, na Serra dos Carajás, Pará, Amazônia. Lugar com menos gente e pressão social sobre os impactos. Sem contar as mudanças estruturais da economia mundial, que apontam para um índice maior de reciclagem das ligas metálicas em detrimento do uso de matérias primas virgens. Somado ao fato do uso cada vez mais intenso do plástico.           

Variações de preço e concorrência no mercado internacional e até a estratosférica taxação pelos norte americanos também arrocham os cintos do setor.

A venda da mais antiga siderúrgica capixaba, a Cofavi (Companhia Siderúrgica de Vitória), pela gigante ArcelorMittal para um grupo menor, o mexicano Simec, é outra evidência. Ato contínuo a venda, a atual é Simec chegou a ficar com a produção paralisada por semanas.

Toda a estrutura portuária montada para atender ao complexo minero siderúrgico pode e deve ser a saída para a economia capixaba. Vocação iniciada em 1535, quando Vasco Fernandes Coutinho aportou por essas terras.

Vidigal fortalece Audifax!

Por Yuri Scardini

Há alguns dias para começar as convenções partidárias, ainda existem muitas indefinições que devem ser acertadas no limite do prazo. E naturalmente as duas principais lideranças da Serra então envoltas em tais indefinições, até porque parte expressiva da eleição passa por eles: o prefeito Audifax Barcelos (Rede) e o deputado Sérgio Vidigal (PDT).

O Pedetista se encontra atualmente numa sinuca de bico pra lá de controversa. Enquanto assumidamente prefere ficar no projeto de reeleição do governador Paulo Hartung (MDB), o PDT Nacional pressiona Vidigal por uma dobradinha com o PSB do pré-candidato ao governo, Renato Casagrande. O deputado e ex-prefeito da Serra se vê em mais um dilema: seguir sua vontade, contrariar o PDT e permanecer com PH, podendo inclusive ser o vice na chapa, ou aceitar a determinação partidária, engolir no seco todo o histórico que pesa entre ele e Casagrande e ficar com os socialistas.

Essa decisão de Vidigal, ironicamente pode ter efeitos positivos para Audifax. A Serra é a cidade com o maior eleitorado, qualquer um que quer ser governador precisa ter atenção com o município e não pode se dar o luxo de não ter nem Audifax nem Vidigal como aliado. Portanto, se Vidigal sucumbir ao PDT e deixar Hartung, fato muito possível de ocorrer, o governador vai precisar obrigatoriamente de Audifax. Esse, por sua vez vem namorado uma aliança com a senadora Rose de Freitas (Podemos), que também é pré-candidata ao Governo.

Com isso, Hartung vai ter que ceder espaço e fazer acordos políticos que atendam aos anseios do prefeito e da Rede. E pode estar ai o trampolim para o partido deslanchar na eleição. Audifax vem em ritmo forte de inauguração de obras e assinaturas de ordem de serviço, alguns já oriundos do empréstimo de R$ 100 milhões junto a Caixa. O prefeito trabalha para ficar bem na cidade e detém controle de uma poderosa máquina administrativa. Sem contar que todos os prefeitos da Grande Vitória estão no campo de oposição.

Todo esse conjunto de coisas põe Audifax na condição de predileto de Hartung, e paradoxalmente Vidigal e o PDT podem ser o potencializador disso ao dar a faca e queijo na mão de seu grande adversário.

 

Retrocesso com o meio ambiente

Por Bruno Lyra

É avassalador o retrocesso ambiental no país e, por conseguinte, no Estado e na Serra, como partes da federação. Não é algo isolado que se restringe ao Brasil: o mundo está vivendo um dissenso do humanismo, então o que é de interesse de grupos tende a se sobrepor aos interesses coletivos, com a balança pendendo sempre para aqueles que tenham o maior poderio econômico, político ou ambos.

Em pleno Copa o Congresso aprova lei que afrouxa o controle de agrotóxicos. Muda o nome, agora é pesticida. Clara tentativa de ludibriar a opinião pública. Como se não bastasse, tramita na mesma casa outro projeto de lei que prejudica a venda de produtos orgânicos. Coincidência ou não, isso ocorre no momento em que estão se fundindo as duas maiores produtoras de agrotóxicos e outros insumos químicos para agricultura do planeta: a alemã Bayer e a norte americana Monsanto.

Em 2012 o Brasil reduziu a proteção ambiental, enfraquecendo o Código Florestal.  No ES, uma nova lei estadual este ano afrouxou exigências no licenciamento ambiental. Na Serra idem, embutida nas chamadas “10 medidas para a desburocratização” de empreendimentos. Ano passado, o governo estadual tentou desconstruir o Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema).

Pássaros silvestres em gaiolas voltaram a ser vistos em qualquer lugar, em horas movimentadas. Tem cada vez mais gente querendo a liberação da caça. A APA do Mestre Álvaro acabou de ser reduzida em mil campos de futebol. Língua negra fétida do rio Jacaraípe se espalha no mar do Barrote e é considerada como natural.

Há tempos não são criadas novas reservas ambientais expressivas na cidade e no estado.  Da lama e metais pesados da Samarco que devastaram (e seguem devastando) o rio Doce, o oceano Atlântico, vidas humanas e a economia capixaba, sobraram acordos generosos que até agora só beneficiaram a mineradora e suas donas, as multimilionárias Vale e BHP.

A poluição do ar na Grande Vitória continua brava. E tome acordos para construir praças de lazer como compensação, suspendendo processos contra as siderúrgicas. Sangue humano com lixo hospitalar é jogado em rio que abastece a Serra e autoridades não divulgam o nome dos responsáveis, mesmo com a identificação das instituições de saúde nos invólucros. E a resposta da Cesan é de que está tudo ok.

Desleixos a parte, o desafio ambiental permanece como uma das megas tarefas da humanidade no decurso desse século XXI. Porque vivemos no planeta. Simples assim.

Se essa rua fosse minha

Por Bruno Lyra

Está na Câmara de Vereadores da Serra um projeto de lei que, caso aprovado, vai permitir que ruas sem saída possam ser fechadas por moradores, criando um condomínio fechado. A proposta é de autoria do vereador Alexandre Xambinho (Rede) e na prática prevê a transformação de áreas públicas, de livre circulação, em espaços privados.

A ideia não é isolada e muito menos por acaso. Está num contexto onde o clamor por segurança é tão grande no Brasil e vários outros lugares do planeta que as pessoas têm topado abrir mão da própria liberdade. É um debate complexo que no limite opõe democracia e república versus uma sociedade mais vigiada.

A história está cheia de exemplos. O mais recente é muro que Trump quer fazer entre México e EUA. Teve o emblemático Muro de Berlim separando a Alemanha por décadas. Também os Bantustões, espécies de cidades – estado onde negros eram confinados durante o Apartheid na África do Sul.

Nos últimos 20 anos a Serra se destacou pelo elevado número de condomínios fechados que se instalaram nela. Mesmo assim o município seguiu sendo o mais violento do ES, um dos mais inseguros do Brasil e em 2004 chegou a ser a cidade com maior índice de assassinatos no mundo. Rio de Janeiro e Cidade do México são dois exemplos de grandes cidades que transformaram bairros abertos em condomínios fechados, e nem por isso deixaram de ser violentas.

Outra questão relevante é a isonomia do Estado. Não é justo que áreas fechadas recebam iluminação pública, drenagem, esgoto, água, coleta de lixo, dentre outros serviços pagos por toda a sociedade, uma vez que não há direito de ir e vir para todos nesses locais.   

É compreensível que propostas de fechar bairros tenham grande apelo, sobretudo junto às classes média e média baixa, cansadas que estão de sofrer tantos roubos. Contudo, é uma solução retalhada que só escancara e não combate a falência da segurança pública e a brutal desigualdade social no Brasil.

Isso ainda misturado a um macrocontexto em que a desterritorialização e os relacionamentos virtuais se aprofundam com o avanço da internet. As pessoas já quase não precisam interagir mais com a cidade onde moram, resolvem tudo pelo dispositivo digital em suas casas ou apartamentos blindados por muros, cercas elétricas, câmeras e vigilantes armados. Um ótimo negócio para a segurança privada e vendedores de soluções drásticas, tipo super heróis que se apresentam como salvadores da pátria.  

É cíclico na história. Os mesmo que pedem pelo cerceamento da liberdade irão sentir falta dela e, no futuro, brigarão por sua volta.   

O dilema de Vidigal

Por Yuri Scardini

Com a avizinhamento da eleição de outubro, vai se afunilando os acordos partidários. E o que indica é que há sim uma forte possibilidade do deputado federal e ex-prefeito da Serra, Sérgio Vidigal (PDT) ser vice na chapa do atual governador Paulo Hartung (MDB), mesmo que PH nem ao menos tenha oficializado sua candidatura à reeleição.

Essa é uma decisão definidora na carreira de Vidigal, que no alto dos seus 61 anos, não têm mais espaço para cometer erros. Mas isso não necessariamente signifique que ele não pode ousar, pois eleição é isso, riscos.

O dilema de Vidigal encontra-se na possibilidade de ficar bem próximo da cadeira de governador, sob pena de sepultar sua carreira política em caso de derrota. Vidigal costura com Hartung uma vice-governadoria, e se bem sucedida, em tese seria o 1º na linha de sucessão do governador. Já em caso de derrota, ficaria sem cargo, enfraquecido frente a vários de seus adversários políticos, e poderia ser engolido pelo ostracismo político.

Se declinar, Vidigal caminhará por um trajeto mais tranquilo, deve se reeleger sem problema para deputado federal. E vai mirar a prefeitura da Serra em 2020, posto que já ocupou por 16 anos. Podendo inclusive perder a eleição, fato que já ocorreu por duas vezes consecutivas, e encurtar sua trajetória.

Vidigal trabalha com situações extremas, e não há matemática que posa calcular seu o destino. Vidigal tentou ser governador há 12 anos. Perdeu, e viu lideranças políticas até então menores do que ele tomar projeção. E foi ficando para trás na política capixaba, e para piorar, em seu reduto, a Serra, foi derrubado por Audifax Barcelos (Rede).

Agora Vidigal vê uma possibilidade real de dar uma rasteira no passado e voltar com tudo mirando no Palácio Anchieta e a caneta de R$ 16 bilhões por ano do governador. Se bem sucedido, o vice-governador Sérgio Vidigal abriria espaço para outras lideranças da Serra buscar a prefeitura. Ao que parece o primeiro da lista é Vandinho Leite (PSDB), e nesse cenário estaria bastante estruturado um eixo de oposição ao prefeito Audifax, que a dois anos da eleição municipal ainda não sinalizou o nome de sua sucessão. Parece ser esse o dilema: Tudo, nada, ou mais do mesmo. 

Greve dos caminhoneiros, Democracia e eleições

Por Hélio Maldonado

A “Lava Jata” acabou por reflexamente ruir a “imagem” daquela que em um passado recente era o orgulho nacional: a Petrobrás. A empresa pública, líder da produção e exploração de combustíveis no país, assim age para salvaguardar os “imperativos de segurança nacional”. Por tal razão é que a mesma, na regulação do mercado, promovia subsídio do preço dos combustíveis em geral. Mas, com a eclosão da “Lava Jata”, quantificado o estratosférico prejuízo ao erário decorrente da corrupção lá impregnada, passou-se a disseminar no senso comum que a empresa pública não mais serve ao Brasil. Desestatize-a, bravata agora “o povo”.

Seguindo assim, instaura-se uma nova política de gestão, permitindo que o preço dos combustíveis acompanhe a flutuação do dólar. Logo, a variação em escala progressiva do preço do diesel acabou por sufocar a mais valia do frete dos caminhoneiros. A greve eclodiu, persistindo por dez dias.

O episódio lança luzes sobre as condições de possibilidade da democracia no país. É intuitivo que o poder do Estado provém do “povo”. Contudo, em tempos de “modernidade líquida” os interesses são fragmentários, aglutidos em grupos de interesse. Destarte, na “arena política”, esses interesses estão em permanente guerra, agindo a opinião pública como força gravitacional sobre a formação desses “partidos”, tudo com o fim maior de influir no agir do Estado.

Por isso é que as Eleições se afiguram como o momento propício de consenso entre os grupos de interesse convergentes e divergentes. Ocorre que, a “Lava Jato” acabou também por sepultar a confiança já cambaleante do sistema político brasileiro. Esquerda e direita, respectivamente personificadas no PT e PSDB, estão derrotadas, dado o homogeneizado envolvimento no escândalo.

A míngua da existência de liderança que possa arregimentar partidos em torno de um projeto de Governo, as candidaturas se pulverizam, provocando um efeito cascata sobre as Eleições estaduais. Pior, haja vista um período de campanha que perdura por apenas quarenta e cinco dias, existe uma certeza da incerteza do resultado das Eleições de 2018.

O efeito Vidigal

Yuri Scardini

Enquanto o governador Paulo Hartung (MDB) atrofiou a política local ao não anunciar oficialmente sua intenção de ser candidato à reeleição, um efeito cascata ocorre no mercado político da Serra. É grande a possibilidade do deputado federal Sérgio Vidigal (PDT) ser vice numa possível chapa com Hartung. Entre as muitas consequências eleitorais caso isso ocorra, estará algo absolutamente relevante: Se Vidigal deixar da disputa de federal, projeta-se que cerca de 100 mil votos estarão à solta na Serra, o que significa aproximadamente metade dos votos válidos.

Essa indecisão tem feito com que as lideranças políticas planejem suas campanhas sempre em dois cenários: um ‘com’ e outro ‘sem’ Vidigal na disputa. Se as costuras com PH não avançarem e Vidigal permanecer com o projeto de reeleição, isso fecha as arestas para diversas candidaturas, e possivelmente até candidatos de fora não devem se assanhar tanto para vir pra cá pedir voto. Agora, se Vidigal fizer a dobradinha com Hartung, o eleitorado da Serra para candidato a deputado federal vai se transformar no mais sedutor do ES.

Na prática o campo vai estar aberto. Mesmo que Vidigal lance sua esposa, Sueli Vidigal, muitos acreditam que essa transferência de votos não será fácil. Neste cenário, a família Lamas tem uma tendência de lançar uma candidatura, ou com o deputado Bruno Lamas (PSB) ou a ex-secretária de educação, Márcia Lamas. O mesmo vale para o candidato da Rede, Guto Lorenzoni. Ele vem articulando redutos fora da Serra, mas admite que sem Vidigal em seu caminho, abre-se uma avenida a seu favor.

Há quem acredite em um cenário pra lá de irônico. Sem Vidigal e com Sueli na disputa, militantes da Rede dizem que é possível pensar numa candidatura a federal da esposa do prefeito Audifax Barcelos (Rede), Mara Barcelos, que se filiou à Rede no prazo limite em março.

De qualquer forma, esse é uma decisão definidora na carreira de Vidigal. Se mantiver como deputado federal, acredita-se que no máximo, num cenário bem favorável, consiga voltar a condição de prefeito da Serra, posto que já ocupou três vezes. E correndo o risco de se caso não conseguir, ver praticamente encerrada sua trajetória.

Agora, se topar ser vice de PH são duas situações: Ou ganha a eleição e entra na linha de sucessão para o Governo, e estende sua carreira e toma a projeção estadual que sempre sonhou, ou perde a eleição, e esteriliza suas chances de ao menos voltar a prefeitura da Serra.

Contornando a palhaçada

Bruno Lyra 

Com seus 25km de extensão, a rodovia do Contorno de Vitória (BR 101) é fundamental para a mobilidade do estado e até do país. Por isso, de importância imensa para a economia. Especialmente para Serra e Cariacica, cidades cortadas pela via, e que têm parte importante de seus parques logísticos e industriais em suas margens.

Na Serra, os polos Piracema, Jacuhy e TIMS. Sem contar o fato de que carretas são proibidas de circular em Vitória nos dias úteis em horários comerciais, o que coloca o Contorno como única alternativa viável para o trânsito de cargas entre os litorais sul e norte do ES. É também rota fluida para carros de passeio que precisam fazer o trajeto e evitar o trânsito da capital. Tem ainda as linhas do Transcol que ligam Serra e Cariacica pela via.

Diante de toda essa importância, já é gravíssimo o fato da rodovia estar em péssimo estado, com desnivelamento da pista e buracos em boa parte do trajeto. Mas a situação é ainda pior ao lembrar o fato de que o trecho capixaba da BR 101 está sob concessão da Eco 101 há cinco anos; que a empresa cobra pedágio em sete pontos da BR há quatro anos; e que houve reajuste médio de 40% nas tarifas desde então.

Significa dizer que os motoristas e donos de frotas têm de pagar além do IPVA, pedágio. E mesmo assim, o que lhes é entregue é uma rodovia com alto risco de acidentes e que aumenta o custo de manutenção dos veículos pelo péssimo estado.

O jogo de empurra que se arrasta desde o início da concessão entre Eco 101, Departamento Nacional de Infraestrutura (DNIT) e Transporte e Agência Nacional de Transportes Terrestres é uma ópera bufa onde além de palhaço expectador, o capixaba é a vítima que paga a conta.

É emblemática a complacência com que ANTT, órgão responsável pela concessão, trata a Eco 101. Além de não cumprir os prazos da duplicação de outros trechos da BR previstos em contrato, a Eco deixou a Rodovia do Contorno se deteriorar a esse ponto. Detalhe que a via lhe foi entregue duplicada e com asfalto praticamente novo após uma obra que durou longos 15 anos e que foi custeada com dinheiro público, sob gestão do DNIT.

Da mesma forma que é emblemática a dificuldade das lideranças políticas capixabas em articular uma saída para a Rodovia do Contorno. 

Vaga para gerenciar 60 bilhões

Yuri Scardini 

Há pouco menos de 4 meses para as eleições, o brasileiro deve dar uma mergulhada da política e voltar sua atenção à Copa do Mundo. Mesmo que haja insatisfações generalizadas, é difícil não se envolver no principal evento do principal esporte nacional. Principalmente se gols e vitórias vierem. Mas isso não quer dizer que os bastidores políticos se acalmem, até porque, o início para as convenções partidárias irá ocorrer apenas 5 dias após o fim da Copa.

Em terras capixabas, espera-se ao menos três candidatos: o governador Paulo Hartung (MDB); o ex-governador Renato Casagrande (PSB); senadora Rose de Freitas (PODE). E quem ganhar vai gerenciar cerca de R$ 60 bilhões em 4 anos.

Porém, não se descarta demais candidaturas e até mesmo alguns ‘laranjas’. Prática já usada em outras campanhas. Há também partidos menores que esboçam lançar candidatos ao Anchieta, é o caso do PSL do presidenciável Jair Bolsonaro e do deputado federal, Carlos Manato. O PSL capixaba, recentemente lançou a pré-candidatura do militar, coronel Carlos Foresti, como é conhecido.

Foresti é um dos acusados de envolvimento na paralisação da Polícia Militar em fevereiro de 2017. Movimento que gerou profundo desgaste a imagem de Hartung. Paradoxalmente, se consolidar a candidatura de Foresti, quem ganha com isso é o próprio Hartung, já que em tese Foresti dividiria parte do eleitorado de Casagrande que rejeita Hartung. Há quem diga que o próprio governador estaria por trás desse movimento. Não se pode supervalorizar e nem menosprezar essa pré-candidatura. Além de estar chancelado pelo odiado ou amado Bolsonaro, Foresti é uma das figuras com maior audiência nas redes sociais, local em que ele parece ser maior que Hartung, Casagrande e Rose, juntos.

Aqui na Serra, os nomes mais expressivos da política local parecem já ter seus lados. O prefeito Audifax (Rede) fica com Rose, podendo indicar o vice. Já o deputado Sérgio Vidigal (PDT) pode ser o próprio vice de Hartung, com o apoio do tucano Vandinho Leite e o deputado Jamir Malini (PP). Já Casagrande terá a família Lamas como articuladores de campanha na Serra. Ainda não se desenhou um apoio local à pré-candidatura de Foresti.  Mas, quem sair vitorioso dessa disputa, já dá um enorme passo visando à eleição municipal de 2020.

 

Latrina de Tubarão não!

Bruno Lyra 

Os moradores de Pitanga pediram ajuda ao Ministério Público para tentar impedir que a área de uma pedreira abandonada seja o destino dos rejeitos que a Vale vai ter que tirar da Praia de Camburi. O local fica aos pés do Mestre Álvaro e perto da nascente do Canal dos Escravos. Os moradores também temem por um eventual estouro dessa barragem de rejeitos, tal como aconteceu em Mariana, MG.

Difícil dizer se tal tese é exagerada ou não. O fato é que tem sobrado para a Serra muitos ônus da siderurgia em Tubarão. Foi a cidade que teve o crescimento mais acelerado quando a Vale resolveu por suas usinas ali. Desde então se tornou o lugar mais violento do ES. Os impostos das usinas da Vale e dos portos de Praia Mole e Tubarão vão todos para Vitória. E ainda tem que dividir os tributos da ArcelorMittal Tubarão com a Capital.

A Serra paga R$ 1,1 milhão todo ano para a Vale manter um projeto social na cidade, a Estação Conhecimento. Será que a mineradora multinacional e multimilionária não poderia fazê-lo sem dinheiro do contribuinte serrano?

Até o IPTU do clube Aert, cujo endereço consta como Bairro de Fátima, está na Justiça porque Vitória reivindica a arrecadação. Detalhe que todos os acessos ferroviários e rodoviários de veículos pesados para Vale e Arcelor são pela Serra. O munícipe serrano tem que custear, por exemplo, a manutenção das vias públicas desse fluxo.

Resíduos industriais das duas empresas vem para o aterro da Vitória Ambiental, localizado em Putiri, zona rural entre o rio Reis Magos e a lagoa Juara. Mais recentemente, os resíduos conhecidos como escória foram jogados nos alagados do Mestre Álvaro para implantação de novo trecho da BR 101 (Contorno do Mestre Álvaro). A ação foi embargada pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema).

A mesma escória que já havia sido usada em área alagadas para expansão do Polo Industrial Piracema, também nos alagados do Mestre Álvaro. Em maio o secretário de Meio Ambiente do ES, Aladim Cerqueira, chegou a afirmar em audiência pública na Câmara da Serra que escória não pode ser jogada em locais com contato freqüente com a água por risco de contaminação. É compreensível que os serranos não queiram que sua cidade siga como latrina de Tubarão.

Poder e reputação

Por Gideão Svensson

“Quem cria o poder de outrem se arruína, pois este poder se origina ou na astúcia ou na força e ambos são suspeitos a quem se torna poderoso: a criatura voltando-se contra o criador”. (O Príncipe – Maquiavel).

Há mais de vinte anos a polarização política tomou conta da Serra. Uma cidade com mais de 500 mil habitantes reféns do domínio de uma geopolítica que freia o desenvolvimento político não deixando espaço para os cidadãos exercerem suas liberdades – “A cidade acostumada à liberdade pode ser dominada mais facilmente por meio dos seus cidadãos do que por qualquer outra forma”.

“Todos os direitos da humanidade foram conquistados pela luta; seus princípios mais importantes tiveram de enfrentar os ataques daqueles que a eles se opunham; todo e qualquer direito, seja o direito de um povo, seja o direito do indivíduo, só se afirma com uma disposição ininterrupta para a luta. O direito não é uma simples ideia, é uma força viva”. (Rudolf Von Ihering).

Vivemos na Serra um período de instabilidade jurídica e política. A desarmonia dos poderes e em consequência a quebra de sua independência, tem feito o Município sangrar. O que vemos é uma disputa dos poderes sem pudor e limites com a invasão de competências, afrontado todos os princípios que regem a administração pública.

Neste sentido, Montesquieu, para evitar os conflitos entre os poderes criou o sistema de Freios e Contrapesos, ou seja, a limitação do poder pelo próprio poder. Cada poder deveria ser autônomo para exercer a função que lhe fora atribuída. (MONTESQUIEU, 1998). Não é o que se observa nos poderes de Serra, muito pelo contrário, faz tempo que tanto o Executivo como o Legislativo se afastaram do interesse público, qual seja, o da coletividade.

Infelizmente, o que se observa na política da Serra é a perda da reputação por parte da maioria dos políticos, “a reputação é a pedra de toque do poder”, sem a reputação os políticos ficam vulneráveis e caiem nos braços da opinião pública, que se incube de acabar com eles. (As 48 leis do Poder).

Diante deste quadro, no qual os atores do Executivo e Legislativo se trancafiam numa luta do poder pelo poder – só o povo salva o povo!

Gideão Svensson é advogado e ex-vereador da Serra

Vai dar para governar o município?

Yuri Scardini 

Com o resultado da eleição de sábado passado (02), na Câmara da Serra, que conduziu o vereador Rodrigo Caldeira (Rede) para mais dois anos no comando do Legislativo Municipal, a política da Serra fica em alerta sobre a condição de governabilidade do Poder Executivo sob tutela do prefeito Audifax Barcelos (Rede). Não se trata apenas de joguinho político, significa o conjunto de condição necessária ao exercício do poder de governar.

O grupo de oposição assumiu o controle da Mesa Diretora e de todas as comissões relevantes da Câmara. Tudo bem é democrático e faz parte do sistema político brasileiro. Mas agora a pressão está nas costas da oposição, que tem que mostrar para a população que tal movimento não se trata ‘apenas’ de uma nociva disputa por poder. Um Legislativo que se autodenomina “independente” não pode enveredar para o irresponsável. E só o tempo dirá a verdade sobre tal movimento.

O que o prefeito Audifax enfrenta é um conjunto de situações que se fundiram. Diferente do que parte da mídia estadual coloca, esse grupo de oposição não tem como “pai” o deputado federal Sérgio Vidigal. É um erro, e até certa inocência acreditar nisso. Vidigal é só umas das forças que invariavelmente agregaram ao conjunto da oposição. Na prática, Vidigal pode ter interferido em 2ou no máximo 3 votos para a eleição da Mesa Diretora da Câmara.

A rede que está por trás da oposição é formada por muitas pernas, incluindo forças de fora da Serra, e foi semeada pela ganância, descontentamento e até certa inabilidade e desprestígio do trato do Executivo com o Legislativo, se transformando em um comitê de oposição e que em dois anos vai deter o controle de R$ 60 milhões e da agenda administrativa do município.

​Parte desse comitê não tem nenhuma ligação orgânica com a cidade e nem sequer reside na Serra. Por isso, os vereadores de oposição não podem perder de vista, que no meio desse tiroteio entre Executivo e Legislativo, há 500 mil pessoas, das quais 100 mil estão na linha da pobreza e intimamente dependentes da Prefeitura. Um processo Legislativo irresponsável, dentro do contexto de uma cidade tão complexa como a Serra, significaria sujar as mãos de sangue.

Só na pedrada nos capixabas

Bruno Lyra 

A Serra tem o maior parque beneficiador de rochas ornamentais do ES, principal estado produtor do país, e está recebendo até domingo (10), no Pavilhão de Carapina, a maior feira do setor na América Latina: A Vitória Stone Fair. Embora emblemática, a ausência do nome da Serra no evento é o menor dos problemas que o setor gera na cidade. Assim como em outros municípios capixabas no caminho desse arranjo produtivo.

São mais de 200 indústrias de portes diferentes na Serra, que além do barulho e poeira, deixam resíduos sólidos. Casqueiros (pedaços de pedras) e a lama abrasiva, esta uma massa cinza com pó de pedra, água, solventes e fragmentos de lâminas e lixas usadas no processo de beneficiamento.

Por anos, pelo menos parte dessas indústrias descartavam esses materiais sem qualquer critério em terrenos baldios e áreas de preservação. Depois passaram a jogar num terreno próximo ao Barródromo, em Portal de Jacaraípe, na calha de drenagem da lagoa Jacuném. O local acabou desativado por determinação do Ministério Público.

Atualmente os rejeitos vão para um aterro aos pés do Mestre Álvaro. E além do impacto à água e solo num local onde há nascentes da lagoa Jacuném, este aterro também impacta a paisagem.  Outro problema é o transporte, feito em sua maioria por rodovias. Gera desgaste das vias e riscos de acidentes. Muribeca, Nova Almeida e Jacaraípe são rotas para carretas com pedras e peso em excesso para fugir da fiscalização na BR 101, onde há balança próximo ao posto da PRF em Belvedere.

Os acidentes com carretas transportando pedras são brutais. Nos últimos 11 anos mataram pelo menos 55 pessoas em estradas capixabas. Problemas que começam desde a extração, com desfiguração da paisagem, solo, matas e nascentes. Segundo um levantamento do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema), havia mais de 1,7 mil lavras licenciadas ou em processo de licenciamento no ES em maio de 2017. 

É também um dos setores que mais coleciona acidentes de trabalho, com mortes, mutilações e doenças ocupacionais geradas pela aspiração de pó de pedra. Ao mesmo tempo é modesto gerador de tributos. Por exemplo, na Serra o setor recolhia menos de R$ 100 mil por mês de ISSQN em 2016, o que correspondeu à cerca 0,7 % de tudo que a cidade arrecadou desse imposto no período (dados do TCES).  Na balança do custo-benefício, não é difícil concluir que o setor de rochas está em dívida com a Serra e com o Estado.

Barril de pólvora e protagonistas

Bruno Lyra 

A greve dos caminhoneiros revela um movimento sem liderança muito clara. A força da mobilização pelas redes sociais dificulta a cooptação, mesmo considerando que este movimento possa estar sendo insuflado por empresários do transporte e instituições corporativas, como acusa o governo. 

Se há algo inequívoco é a fragilidade da reação deste governo. E não obstante os esforços de estados e municípios para tentar evitar a paralisia total, o fato é que a reação das lideranças políticas está aquém do desafio e só confirma o porquê da insatisfação geral da população com o presente/futuro do país. População esta que mesmo sofrendo cada vez mais os efeitos, segue apoiando ou simpática a greve.

A insatisfação popular se estende para outros poderes, como o legislativo e o judiciário. Mas por hora parece catalisada contra o governo Temer, colocando gente de esquerda, centro e direita, incluindo grupos pró-retorno da ditadura militar, numa agenda comum que é muito mais do que a redução do preço do diesel. O Brasil é um barril de pólvora que às vezes explode.

E desta vez atinge até os protagonistas caminhoneiros e seus familiares. Afinal, são pessoas que também estão com risco de ficar sem alimento, não ter remédio e atendimento hospitalar, água, transporte e outros itens de primeira necessidade. Muitas são as lições que essa greve pode ensinar. Uma delas é problema da dependência do petróleo e da matriz rodoviária.

O Brasil errou feio em dar às costas aos trens e hidrovias. Errou ao negligenciar o álcool, onde tinha virado vanguarda. Erra ao permitir que estradas sejam péssimas. Erra ao fazer concessões duvidosas, com pedágios caros em relação ao que se entrega. Erra ao arrancar o couro da população com impostos e burocracia asfixiantes, sobretudo com os mais pobres. Erra ao não promover maior igualdade social e a continuar privilegiando castas.  

É possível o desabastecimento se estender pelos próximos dias. É possível que o brasileiro médio tenha que passar um período de racionamento. Mais ou menos como as classes mais carentes já vivem no cotidiano. Isto a cerca de cinco meses de uma eleição presidencial e nos estados. Será um grande teste para a república e ainda que o assombro da saída autoritária se insinue como rumo, há de se aprender mais um pouco da lição de uma democracia cada vez mais horizontal, de protagonismo virtual que a cada lance desce a terra das pessoas de carne e osso.

Temperatura máxima na Câmara

Yuri Scardini 

É neste sábado que deve ocorrer à eleição da Mesa Diretora da Câmara da Serra. É esperado um pleito tenso, coberto de confusões e brigas, já que o resultado é praticamente imprevisível a essa altura. Porém, observadores da política, estão bastante descrentes que irão cessar as instabilidades políticas pós-eleição.    

Não é de hoje que a Câmara é repleta de questionamentos. Para falar a bem da verdade, é histórico. No livro Viagem de Dom Pedro II ao Espírito Santo, do escritor Levy Rocha, o imperador relata que ao visitar a Serra-Sede em 1860, foi constatado um superfaturamento em uma obra da Câmara Municipal. A Serra é um lugar de intensas brigas por poder e o parlamento reflete isso. Mas de qualquer forma, acredita-se que toda essa situação atual atingiu um ponto de fricção tal, que se evoluir haverá um iminente risco de tragédia.

Aliados do prefeito Audifax, relatam que a cisão com o atual presidente da Câmara, Rodrigo Caldeira é irreversível. Não só ele, mas também parlamentares que o rodeiam. Já do outro lado, vereadores de oposição orgânica relatam que caso os governistas percam essa eleição, a Câmara tem tudo para ser bastante hostil ao prefeito. Dizem que irá pipocar CPI’s e se fala até de impeachment. Difícil saber até onde é verdade, já que a realidade é mais complexa do que isso, mas percebe-se que não há nenhum pingo de republicanismo em tudo isso, se tratando apenas de polícia de grupos.    

A intenção da oposição, caso vença a eleição da Mesa é preparar o terreno para a eleição municipal de 2020, quando Audifax deve apresentar seu sucessor. Sem um alinhamento com a Câmara, o prefeito perde muito espaço de manobra política. É este o pano de fundo de tudo isso. Até porque, a posição de prefeito da Serra é uma das maiores vitrines capixabas. Com um orçamento de R$ cerca de 6 bilhões em 4 anos e o poder de nomear mais de 700 cargos comissionados.

Veremos como este importante capítulo irá acabar, mas, verdade é que a eleição de 2020 começou no momento em que a de 2016 terminou, e é assim que as coisas são.  

Quem não tem lado não tem fundo

Por Gilson Gomes Filho

A política, em um de seus conceitos, seria a habilidade de relacionar-se com os outros, a fim de obter resultados desejados. Talvez, uma arte de negociação para compatibilização de interesses em jogo.

O enfrentamento é natural na política e, aliás, na própria vida, na própria sociedade e não há nada de ruim nisto, desde que as opiniões, embora divergentes, almejem um benefício coletivo, uma vez que a política pressupõe um agrupamento social em favor de interesses, presumidamente, da maioria.

Buscar a conciliação tem sua importância, entretanto, não pode ter o condão de desmerecer ou se sobrepor aos valentes, até porque o valente é aquele que luta, que tem coragem e que não receia o perigo.

Oras, no mundo da política, como qualquer outro em que as disputas são inerentes, não há nada de errado em ser uma pessoa de luta, até porque os conciliadores podem, no uso de suas habilidades, querer evitar, justamente, os enfrentamentos em nome de seus interesses pessoais, portanto, nada públicos.

O desencanto com os representantes no país atingiu índices que beiram 90%, isto é, os eleitores não se sentem representados pelos políticos, mesmo os que neles votaram e é aí que entra o papel de liderança para que a sociedade sinta-se guiada por um líder, ainda que relembre um gladiador.

Os avanços da humanidade foram conquistados com muita luta possivelmente em alguns pontos, pela falta de diálogo. Reconhece-se, é verdade, a importância da conciliação como método alternativo de solução de controvérsias que explora maior participação dos interessados.

A conciliação, por sua vez, não pode ser usada para fins estritamente particulares no campo da política. As ações políticas, em determinados momentos, pedem atitudes enérgicas, embora não seja incomum na história recente haver bem sucedidos articuladores de bastidor.

A crise atual, no entanto, é de representatividade, de posicionamento, de firmeza e nunca se tornou tão atual o velho ditado, quem não tem lado não tem fundo. Quem não se posiciona, não passa a confiança necessária à sociedade com seu papel de liderança.

Gilson Gomes Filho, Advogado e Presidente da Câmara Municipal de Laranja da Terra

Situação perto do limite

Bruno Lyra 

Assim como outros lugares do país, a Serra está sentindo com força a greve dos caminhoneiros contra o aumento sucessivo dos combustíveis. Na tarde de ontem, (24) filas imensas se formavam nos postos de gasolina, alguns desses estabelecimentos já estavam sem o produto.

É uma situação que se aproxima do limite. O país anda sobre rodas e a suspensão de transporte de cargas vai gerando efeito cascata com potencial para provocar convulsão social, tal como a vivida pelos capixabas durante a paralisação da PM em fevereiro do ano passado.

Por exemplo, sem combustível não rodam viaturas da PM. A Polícia Civil não faz perícias, ações de busca e apreensão, recolhimento de corpos. A Serra tem o presídio do Queimado. Sem transporte, comida não chega lá, agentes penitenciários não trocam de turno, detentos não podem ir às audiências. Aumenta o risco de rebeliões.

Com a aproximação do fim de semana, onde o estado normalmente já dá respostas mais lentas, a precarização da segurança pode assanhar saqueadores, bandidos de ocasião e os costumazes. Ainda mais na cidade que lidera os índices de violência no ES há décadas. Tudo potencializado com o risco iminente de desabastecimento de alimentos nos comércios.

Há perigo de morte nos hospitais com a dificuldade em chegar insumos. O transporte público, a coleta de lixo, ambulâncias, serviços tão essenciais quanto à segurança pública, podem parar. Trabalhadores e matérias primas têm risco de não chegar às indústrias. Comércio e serviços também engessam. Mais um problema num país em crise e num estado especialmente sofrido com turbulências econômicas locais – paralisação da Samarco, sobretaxação do aço nos EUA, perda de royalties e fim do Fundap.

Outro ingrediente explosivo no contexto dessa greve é a situação política do país, que vai encarar uma eleição imprevisível em outubro e está mergulhado num cenário de extrema polarização, como movimentos radicais ganhando corpo em todas as matizes do espectro ideológico.

Justa ou não, a greve dos caminhoneiros expõe a fragilidade de um país que optou pelo sistema rodoviário, na contramão de outras nações de grande território que diversificaram seu modal. E também escancara a insatisfação com as lideranças políticas e membros de outros poderes constituídos da república.  Um prato cheio para ascensão de arautos alucinados defensores de soluções mágicas e autoritárias.

Apequenamento do legislativo

Helio Maldonado 

De 1964 a 1985 o Brasil vivenciou seu regime ditatorial, através do autocrático “Governo Militar”, e no uso desmedido da força para sua obediência. O fundamento de validade dessa forma de Governo encontrava eco na Constituição de 1967, que outorgava função legislativa direta ao Executivo.

No ápice de sua intolerância, o Governo Militar promulgou o Ato Institucional nº 05, concedendo a si próprio poder absoluto, suspendendo, concomitantemente, o Legislativo como um todo.

Desde então, mesmo com o novo paradigma da Constituição de 1988, após o fim da ditadura, o Poder Legislativo vem sofrendo um apequenamento institucional.

Essa razão maior de ser decorre do chamado “presidencialismo de coalizão”, em que no momento pré-eleitoral é pactuada uma coligação pela reunião de Partidos em torno de uma candidatura para o Poder Executivo. Em contrapartida dessa união de “esforços”, no momento pós-eleitoral forma-se um “Governo de coalizão” entre os Partidos integrantes de sua “base”, para que, por meio de institutos mal esclarecidos como a “fidelidade partidária”, possa o Poder Executivo tanto pautar como votar a agenda de deliberações do Legislativo.

Nos Municípios esse cenário se repete. Executivo, com sua dotação orçamentária e estrutura administrativa de cargos e salários, promove uma verdadeira relação de subjugação das Câmaras. Vejam os exemplos do Mensalão e Petrolão. Entretanto, dada a permanente disputa pelo poder, a governabilidade se garante até que convenha ao Legislativo. Vejam o exemplo do Impeachment de Dilma.

Exatamente esse é o quadro que se desenha na disputa política, judicial e até de eminente violência na Eleição para a Mesa Diretora da Câmara da Serra, marcada para o dia 2 de junho, que, diga-se de passagem, manterá o controle da “pauta legislativa”, segundo seus interesses ou do Prefeito. Dividem-se grupos pró-Audifax, pró-Vidigal, e ‘pró-si próprios’, colocando-se, em todas essas hipóteses, o interesse egoisticamente secundário dos Vereadores em detrimento da busca da realização do interesse público primário pró-população da Serra.

(i)responsabilidade de vereadores

Yuri Scardini 

“Nos orgulhamos desta invicta terra, recamada de glória e de beldade. E havemos de fazer de nossa Serra um sublime rincão, linda cidade […] avante serranos, trabalharemos confiantes num porvir mais bonançoso. A bem da Serra, unidos, caminhemos, para poder alcançar viver ditoso […] Não espero que percamos este ensejo. De rever nossa Serra mais querida”.

Estes são trechos do hino da Serra, um dos elementos de formação de identidade de nossa cidade, mesmo que desconhecido para grande parte dessa população que provém do caos migratório a partir dos anos 70. O hino foi escrito pelo professor Jaime de Abreu nos anos 60. A letra foi pensada para homenagear serranos ausentes. Mas talvez, nunca tenha sido tão contemporânea.

Ausência. É o sentimento que permeia o coração daqueles minimamente ligados com a vida, a história e o tempo da Serra. Paradoxalmente, essa ausência é representada exatamente por quem deveria nos representar. O extratado político mais próximo da população, ou seja, a Câmara e seus vereadores que deram as costas para seu povo, num processo político peçonhento e fisiológico, que já sobrepujou para a justiça e a polícia e caminha a passos largos para a tragédia.

Vereadores resgatem sua lucidez e olhem por aqueles que vivem as mazelas existenciais. Ainda há tempo de resgatar a si desse processo de embriaguez do poder e do abismo ególatra. Prefeito e vereador um dia passarão, tornando-se elementos de um passado vetusto. Mas o legado deixado por cada ficará. Como querem entrar para a história? Não vale tudo pelo poder.

Que haja diálogo entre os Poderes. A política da Serra ficou personalista à beira da irracionalidade. Voltamos ao século passado através dessa bandalheira. Conversando com figuras mais tradicionais do município, observa-se a lamentável vergonha ao falar da Câmara. Conversando com suplentes de vereadores, observa-se o alívio da reserva. Uma cidade tão próspera, uma pena.   

Dinheiro jogado no esgoto

Bruno Lyra 

A imagem capturada por drone da enorme mancha de poluição levada pelo rio Jacaraípe para a praia do Barrote é o retrato do saneamento básico da cidade. A Serra é o primeiro município do Espírito Santo a receber uma Parceria Público-Privada (PPP) para coleta e tratamento de esgoto.

A PPP está em vigor desde janeiro de 2015, ou seja, há 3 anos e 4 meses. Vendida como panaceia contra a falta de dinheiro para melhoria quantitativa e qualitativamente o serviço, a parceria redundou na vinda da empresa Serra Ambiental, que passou a operar as redes, elevatórias e Estações de Tratamento de Esgoto (ETE´s) da Cesan na cidade.

A Cesan passou remunerar a Serra Ambiental usando a taxa de esgoto, que custa 80% do valor da conta de água paga pela população. À Serra Ambiental cabe implantar mais rede de esgoto e melhorar o serviço das estações de tratamento de esgoto, seja melhorando a tecnologia e até construindo novas ETE´s.

De fato a Serra Ambiental vem implantando novas redes de coleta, que na prática redundam em mais gente atendida pelo serviço e também mais lucro, uma vez que amplia a cobrança pelo tratamento nas contas de água. Mas e as melhorias das ETE´s? E a construção de novas estações?

Essa é uma das maiores deficiências, pois a maioria das estações foram construídas décadas atrás, quando a população era menor. Nem sinal de investimento da Serra Ambiental nesta seara. Pelo contrário. Foi anunciada a duplicação da ETE Manguinhos, uma das mais novas e modernas, mas com dinheiro público. Sim, a Cesan fará a obra com financiamento do Ministério das Cidades. 

Enquanto isso, nesses três anos, ninguém percebeu melhora nos mananciais e praias da cidade. Pelo contrário, a percepção é a de que o problema só faz agravar. As lagoas Baú, Carapebus, Maringá, Jacuném e Juara já estão sem qualquer condição de balneabilidade.

Os córregos São Diogo, Guaxindiba, Maringá, Laripe, Irema, Das Laranjeiras, Capuba e Preto, além do rio Jacaraípe, são verdadeiros canais de esgoto a céu aberto a sujar praias e afugentar turistas.  A PPP já rendeu CPI na Câmara, cuja conclusão apontou para inconformidade entre cobrança e prestação do serviço à população. A Serra Ambiental já foi multada seis vezes pelo meio ambiente do município por jogar esgoto sem tratamento nos mananciais, as penalidades chegam a R$ 360 mil e já tiveram recursos negados. 

 

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