# Capital especulativo e trabalho

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- Published: 2017-04-28T08:51:35-03:00
- Author: Ana Paula Bonelli

No final de 2016 foi publicada uma notícia que revela bem a forma como o capitalismo
contemporâneo se apresenta. Bono Vox, líder da banda de rock irlandesa U2, fez investimentos
no Facebook (comprou ações em 2009) e estas lhe renderam, em 6 anos, mais do que
o dobro do que ele e sua banda ganharam em décadas de trabalho musical. Vale ressaltar
que os caras faturam muito alto com seus shows: segundo a revista Forbes, cada noite
de trabalho dos irlandeses rendem US$ 10 milhões, ou seja, não estamos falando de
qualquer banda…

Os ganhos de capital, em mercados integrados e voláteis apontam para um caminho:
a produção de riqueza sem o esforço do trabalho produtivo. No cenário atual se torna
bastante atraente apostar em estratégias de aportes financeiros para ganhar com 
especulação, em detrimento de efetivamente empregar tempo e dedicação na produção
de bens e serviços. É claro que isso vale para quem tem muito dinheiro para investir.
Para o trabalhador só resta o trabalho.

As consequências desse modelo econômico, como exemplifiquei acima, é estimular a
especulação em detrimento da produção de riquezas por intermédio do trabalho produtivo.
Contudo, geralmente o trabalhador é comumente diagnosticado como “o” problema do
sistema produtivo. Justamente o elo imprescindível na cadeia de produção – sem trabalhadores
não haveria produção de bens e serviços, diferentemente do juros compostos cobrados,
do qual viveríamos tranquilamente sem – é o mais pressionado por leis e pelo mercado.

Não raro, o trabalhador brasileiro tem sido satanizado injustamente na atual conjuntura.
Estudo elaborado em 2013 aponta que um dado modelo de veículo era produzido no Brasil
ao custo médio de R$ 75.000,00. O mesmo modelo de automóvel na Alemanha era produzido
ao equivalente a aproximadamente R$ 50.000,00. Diante desse dado, apresento duas
perguntas: será que a remuneração dos germânicos é menor que a paga aos brasileiros?
Será que as leis trabalhistas da Alemanha são menos rígidas que as do Brasil?

É mais fácil culpar os pobres e os trabalhadores, pois estes possuem menos artifícios
de defesa. Gostaria de ver o Congresso Nacional ter a coragem de realizar uma revisão
na legislação financeira brasileira, a partir de uma conduta contra-hegemônica.

 
